Comunidade de South River, NJ acusa polícia de constranger e intimidar os imigrantes. Abordagens sempre são acompanhadas de perguntas sobre status migratório e, em alguns casos, resultam em prisões indevidas. Pastores mobilizan-se para impedir abuso de poder na cidade.
Até pouco tempo atrás, a cidade de South River (NJ) era conhecida apenas por concentrar diversas companhias de construção civil e uma numerosa comunidade brasileira. De seis meses pra cá, isso mudou. As constantes prisões e batidas policiais espalharam medo pela cidade e estão fazendo com que imigrantes vejam o local como uma ameaça para seus planos na América.
Os brasileiros que vivem na cidade acusam as autoridades de abuso de poder. Para a maioria dos imigrantes, os moradores estrangeiros estão sendo vítimas de intolerância, perseguição e discriminação. “O tratamento dispensado aos imigrantes é diferente dos demais”, destaca o pastor Teninson Sales, da Igreja Assembléia de Deus, que congrega aproximadamente 200 fiéis.
Na semana passada, Sales reuniu-se com um grupo de pastores e com um advogado para buscar medidas que possam impedir os policiais locais de agirem com excessos contra os imigrantes. “Recentemente fui parado pela polícia e recebi um tratamento rude dos oficiais, mesmo mostrando que sou cidadão americano. Se isso aconteceu comigo, que tenho todos os documentos, imagine com o resto”, questiona.
O advogado orientou o grupo a reunir 10 pessoas que tenham sido constrangidas pela polícia e que concordem em entrar como testemunhas no processo contra os oficiais locais. “Estamos juntando as provas e depois entraremos com uma ação contra a cidade, pois a polícia não tem competência para agir como imigração, nem pode violar os direitos dos cidadãos”, ressalta. A expectativa é de que em 15 dias todas as denúncias já tenham sido juntadas, podendo dar andamento à ação.
Segundo o pastor Teninson, são frequentes as queixas de brasileiros submetidos a constrangimentos. “Devido às recentes batidas realizadas nas proximidades de igrejas, muitos estão, até mesmo, deixando de ir aos cultos. Se não tomarmos uma atitude, South River vai ficar igual a Riverside”, diz, citando como exemplo a cidade que tentou impedir o aluguel de imóveis para indocumentados e a contratação de trabalhadores sem documentos, sofrendo as consequências do forte êxodo de imigrantes.
Enquanto os abusos continuam, os pastores estão orientando suas comunidades quanto ao comportamento a adotar, caso sejam parados pela polícia. “Nossa recomendação é que qualquer pessoa que seja parada pegue o nome do policial, o horário que ele a parou e a placa do carro, para que possa entrar com alguma medida contra atitudes discriminatórias”, explica. “Além disso, também estamos batendo na tecla de que os brasileiros não devem dirigir com carteira internacional, pois a polícia já deixou claro que todo imigrante que for pêgo com essa carteira vai direto para a imigração, porque é um crime federal”.
Para Sales, os brasileiros não podem ser desrespeitados. “Vamos reunir tudo o que precisamos e entraremos com o processo para garantir a proteção dos direitos básicos da nossa comunidade. Só desistiremos disso se sentirmos que as autoridades pararam de constranger os imigrantes. Se nada mudar, pediremos por justiça na Justiça”, finalizou.
Aumenta a discriminação contra imigrantes
Um relatório divulgado pela organização de defesa dos direitos humanos Southern Poverty Law Center (SPLC), esta semana, confirmou um dado que muitos imigrantes vêm sentindo no dia-a-dia: a discriminação contra latinos aumentou nos Estados Unidos.
Segundo a SPLC, de 2003 a 2006 os casos de crimes motivados pelo ódio e preconceito aumentaram 35% em todo país. No ano passado, grupos que estimulam o racismo se multiplicaram mais do que anteriormente.
De alguns anos pra cá, os imigrantes indocumentados tornaram-se as vítimas preferidas daqueles que praticam a intolerância. Para Mark Potock, membro do SPLC, o discurso nacionalista e os debates sobre a presença dos indocumentados no país estimularam o ódio de extremistas. “Esses grupos intolerantes passaram de 844 em 2006 para 888 no ano passado”, afirmou. “A crescente violência tem sido mais frequente contra os latinos e, principalmente, contra os imigrantes ilegais”.
São considerados “grupos intolerantes” organizações e movimentos que vão desde neonazistas, a grupos separatistas e até agrupações religiosas que não aceitam as diferenças étnicas ou raciais.
De acordo com estatísticas do FBI, 819 imigrantes das Américas Central e do Sul foram vítimas de crimes em 2006, contra 595 casos em 2003. “O debate migratório transformou o clima deste país em algo muito negativo”, disse Potok.
Na opinião dele, os mitos que envolvem a ilegalidade seriam responsáveis por este crescimento. “A propaganda que esses grupos fazem é perigosa”, fala. As teorias mais absurdas que fomentam o preconceito dizem, por exemplo, que os mexicanos trouxeram doenças como a lepra para os Estados Unidos, e que todos os dias 12 americanos são assassinados por imigrantes ilegais.
Nas estatísticas do FBI, em 2006, 7.722 delitos de intolerância foram praticados nos Estados Unidos, sendo que 51,8% tiveram motivação racial, 18,9% motivação religiosa, 15,5% estava relacionado à orientação sexual das vítimas e 12,7% teve relação com a etnia da pessoa.
Entre as vítimas de delitos de origem étnica – categoria em que se enquadram os imigrantes, 62,8% sofreram ataques por serem hispanos. As estatísticas evidenciam, também, que 58,6% dos autores desses crimes eram brancos e, em sua maioria, cidadãos americanos exageradamente nacionalistas.