Conquistar a confiança dos jovens e entender que esse período é marcado por conflitos é fundamental para fortalecer a relação familiar
O assessor de imprensa Rodrigo Vasconcelos teve uma adolescência agitada: muitos passeios, namoradas e, algumas vezes, mentirinhas inocentes para driblar a vigilância dos pais. A família viveu intensamente esse período, afinal, não eram raras as discussões, os castigos e as noites mal-dormidas de seu pai e de sua mãe, que só ficavam tranquilos quando o viam entrando pela porta da casa.
Hoje, aos 39 anos, os papéis se inverteram. Rodrigo é pai de Luana e Cauã, dois jovens de 17 e 15 anos que, segundo ele, são responsáveis por seus “cabelos brancos”. “Depois que eles entraram na adolescência, envelheci de tanta preocupação”, brinca. Ele conta que adora os dias normais em que os filhos estão na escola, e já não gosta tanto dos finais de semana. “Eu e minha esposa não temos sossego. Temos que levá-los à casa de amigos, dar dinheiro pro passeio no shopping, ficamos acompanhando o relógio para ver quanto tempo mais eles irão demorar. É uma verdadeira maratona”, conta.
Apesar de ter uma relação muito boa com os filhos, os conflitos são inevitáveis. “Dizer ´não´ para um adolescente é um horror: parece que o mundo vai acabar de tanto que eles reclamam”, afirma.
Rodrigo lembra que no início da adolescência dos filhos seu relacionamento com a esposa entrou em crise, e foi necessário recorrer a um terapeuta para que o casamento sobrevivesse. “Depois de algumas sessões de terapia, entendemos que essa fase é turbulenta mesmo e que nossa autoridade é colocada à prova a todo instante; a partir disso, mudamos nosso estilo de relacionamento com eles, e também decidimos que um não pode tirar a autoridade do outro”, diz. “Hoje, somos duros quando é preciso, mas também sabemos encarar de forma leve algumas situações que acontecem no dia-a-dia”.
Comportamento dos jovens gera conflitos
Segundo a psicóloga Tânia Bianchini, não é pra menos que a adolescência é chamada de “aborrescência”. “Não há pai e filho que não se aborreçam nessa fase, por isso, é preciso muito jogo de cintura para aguentar o comportamento dos jovens”, avalia.
Ela explica que no mundo de hoje, em que o apelo sexual e as drogas estão em toda parte, os pais devem ser muito presentes na vida de seus filhos. “Diálogo é fundamental, mas também é necessário saber curtir a fase desse jovem, participando da vida dos filhos e entendendo que algumas coisas são próprias da idade”.
Tânia destaca que muitos pais brigam com os filhos por eles adotarem comportamentos extravagantes, como andar somente com colegas que gostam de rock, usar piercing, ou usar roupas que os identifiquem com determinado grupo. “Essa é a fase da construção da personalidade e eles precisam se identificar com algum grupo, por isso, quando o pai rejeita essa atitude, ele está afastando seu filho. É melhor conversar, alertar para a importância do bom senso e orientar sobre os riscos da idade do que brigar”.
Antes de tudo é preciso ser um pai responsável, ou seja, saber quem é o amigo, o que eles fazem, onde vão, com quem conversam, etc. “Em conversas descompromissadas com os filhos, os pais colhem muitas informações e podem dar alguns conselhos que certamente serão ouvidos”, orienta.
A psicóloga explica que o fundamental é não parecer chato. “Se você só se dirigir ao adolescente pra reclamar ou impôr regras, dificilmente conquistará a confiança dele. É importante ser amigo, mas um amigo diferente, ou seja, daqueles que ouvem mas também falam coisas sérias que devem ser seguidas”. Tânia conclui: “seus filhos têm que sentir confiança para que recorram a você quando estiverem em dúvida sobre o melhor caminho a seguir ou quando estiverem passando por algum problema”.
Livro narra histórias do cantor Kledir com seus filhos adolescentes
O cantor Kledir Ramil, da dupla Kleiton e Kledir (famosa na década de 80), descreve de forma muito bem-humorada algumas histórias em que já se viu envolvido com os filhos adolescentes no livro “O Pai Invisível”, lançado na semana passada em Newark (NJ).
O título é uma brincadeira com uma situação que muitos pais certamente se identificarão. Na adolescência, os pais falam, falam, falam, mas os filhos nem sempre escutam. “Eles passam por você e nem olham. Se olham, não vêem. Você desapareceu, ficou invisível. Virou o pai invisível. Ninguém sente a sua falta. Ou pior, só lembram de você quando precisam de dinheiro ou de carona”, cita.
Para Kledir, invisibilidade não é ausência, pois o pai está ali o tempo todo, apesar de não ser notado. “Posso estar sempre por perto, sem dar muito na vista, e cumprir minha função de pai: tomar conta deles e passar segurança. Acho que é isso que eles esperam de nós”.
A estrutura do livro é simples: são histórias do cotidiano de Kledir que vão se encadeando numa sequência lógica, trazendo como referência as lembranças de sua própria infância e adolescência. Em meio a isso, surgem os comentários de seus filhos e seus amigos, na linguagem usada pelos jovens em MSN, Orkut, Fotolog, etc.
Kledir é pai de Julia e João e conta que procura passar para seus filhos os mesmos princípios éticos e valores morais que foram passados por seus pais. Mas a forma de relação é diferente, afinal, os tempos são outros. “Por exemplo, meu filho me cumprimenta gritando: ´fala moleque!´, o que sob a ótica dos mais velhos seria uma falta de respeito. Pra mim, esse tipo de tratamento revela um enorme grau de intimidade. O importante é que, com esse nosso jeito descontraído, conseguimos criar uma relação familiar bastante saudável, com muito amor, amizade, confiança e respeito”, finaliza.