A comunidade brasileira poderá ganhar a projeção e o reconhecimento que merece, graças a um mapeamento realizado por Álvaro Lima. Diretor de Pesquisas Econômicas e Sociais da Prefeitura de Boston, ele deu uma grande contribuição ao mostrar à sociedade norte-americana quem são os imigrantes, onde eles estão e qual a importância para as cidades onde vivem. É por este motivo que o jornal National o elegeu como o Brasileiro do Ano. Confira, nesta edição, uma entrevista exclusiva com o executivo.
Álvaro Lima é um dos muitos brasileiros que ocupam lugar de destaque na sociedade norte-americana. Diretor de Pesquisas Econômicas e Sociais da Prefeitura de Boston (MA), ele somou a experiência profissional à origem imigrante para desenvolver um dos mais completos mapeamentos das comunidades estrangeiras nos Estados Unidos.
O jornal NATIONAL elegeu Lima como “Brasileiro do Ano” por acreditar que ele deu uma grande contribuição aos imigrantes. O estudo fornece elementos suficientes para mostrar às autoridades norte-americanas que os brasileiros são indispensávieis para a economia de pequenas, médias e grandes cidades.
Conheça mais sobre a vida e as opiniões de Álvaro a respeito de vários temas que afetam a comunidade brasileira nos EUA.
Conte-nos um pouco sobre sua trajetória pessoal e profissional.
Álvaro Lima - Deixei o Brasil em 1979 para trabalhar em Moçambique, que se tornou independente de Portugal em 1975 e tinha uma proposta de construir uma sociedade mais justa. Vivi lá por 8 anos. Casei com a minha atual esposa – Madeleine Taylor, também lá. Ela é canadense, estava fazendo um documentário e treinando a primeira equipe de cinematógrafos moçambicanos. Tenho dois filhos: André, de 16 anos, e Matheus, de 12.
Fiz o meu mestrado na New School for Social Research, em New York. Depois fui Diretor de Desenvolvimento Econômico de uma CDC (Community Development Corporation) em Boston (Urban Edge), onde trabalhei com imigrantes, pequenos comerciantes e a parte de desenvolvimento da infra-estrutura econômica do bairro. Após essa experiência, fui Manager Director, Vice President e Research Director da ICIC (Initiative for a Competitive Inner City), uma organização sem fins lucrativos fundada pelo Professor Michael Porter, da Harvard. Há três anos, aceitei o convite do prefeito Menino para dirigir o setor de pesquisas econômicas e sociais da cidade de Boston.
Por que o sr. decidiu fazer o mapeamento dos imigrantes que vivem nos Estados Unidos?
Álvaro Lima - Decidi fazer o mapeamento dos brasileiros, bem como outras comunidades imigrantes, para colocá-los no mapa, literalmente. A maior parte das comunidades imigrantes não se vêem espacialmente como parte das cidades em que moram. A intenção foi mostrar o padrão de ocupação espacial e a importância que eles têm para as cidades onde moram.
Acho importante ser parte do mapa, do espaço que ocupamos. Ter consciência de que este é nosso espaço, não interessa onde estamos. O espaço que ocupamos como imigrantes é um espaÇo novo que delinea um mundo novo, um mundo transnacional.
Como o sr. avalia a comunidade brasileira hoje?
Álvaro Lima - Eu penso que a comunidade brasileira tem progredido bastante em condições bastante difíceis: o endurecimento das leis e da vigilância em relação aos imigrantes depois de 9/11, o avanço da direita anti-imigrante no país e a falta de uma política clara, estratégica e intencional do governo brasileiro. Quanto à questão da representação, acho que também progredimos. Hoje, existem várias instituições e vários veículos de comunicação que representam bem a comunidade brasileira.
Na sua opinião, o governo brasileiro poderia ajudar mais os imigrantes?
Álvaro Lima - O Governo Brasileiro não tem uma política clara sobre a imigração/emigração. Mas eu acredito que o presidente tem intenção de ajudar as comunidades de brasileiros vivendo no exterior.
O que falta na minha opinião é uma visão estratégica da imigração e dos imigrantes brasileiros. Por exemplo: hoje são enviados por remessas cerca de 7 bilhões de dólares para o Brasil. Esta é uma fonte de captação de divisas, de investimento no desenvolvimento do país, que não é alavancada pelo governo. O governo poderia criar uma série de mecanismos para alavancar esses recursos.
Os imigrantes são um mercado importante para empresas brasileiras, como os canais de televisão, companhias telefônicas, companhias aéreas, produtos importados do Brasil, artistas, etc. Tudo isto passa desabercebido aos olhos do Governo. Os Consulados continuam sendo instituições cartoriais, quando deveriam também fomentar as relações econômicas, culturais, etc. Existem vários exemplos de políticas de apoio criadas por outros governos como o mexicano e o filipino. O problema é transformar a intenção do Presidente em ações concretas. Para isso, ele tem que investir um pouco do seu capital político.
Para finalizar, atualmente muitos brasileiros estão deixando o país, devido à queda do dólar, crise no mercado de trabalho, ilegalidade, dentre outros motivos. Quais são as perspectivas do sr. em relação ao futuro?
Álvaro Lima - Eu sou sempre otimista. Mas a minha profissão me faz lidar com números e os números não são claros. Por um lado, tem todo esse movimento de brasileiros voltando. Se você olhar os números de 2006 do ACS (Comunity Survey), a população brasileira no Estado de Massachusetts diminuiu cerca de 10,000 pessoas. No entanto, ao nível nacional a população brasileira aumentou em 12,000. Não está claro que haja um movimento de exôdo. No entanto, estes movimentos populacionais são bastante recentes e acho arriscado fazer previsões neste momento.
No geral, a economia americana precisa de imigrantes para crescer. A baixa taxa de natalidade, o envelhecimento da população e a aponsentadoria dos baby boomers, vão criar gaps ainda maiores. Este é um fenômeno que não está acontecendo só aqui nos Estados Unidos. Os países industrializados mostram as mesmas características. Os imigrantes são e serão parte integrante do desenvolvimento desses países. A questão é lutar por melhores formas de inserção.