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9/7/2006 - 10:48

Brasileiros perdem dinheiro em negócio arriscado com avestruzes


Fonte: Agência BR NEWS

Carlos Viana

Quem investiu nos “milagrosos” produtos da Avestruz Master e sonhou com os milhares de Reais que seriam ganhos com a venda das aves emplumadas conta, agora, o prejuízo de anos de trabalho.

O guru financeiro desse sonho que se transformou em pesadelo, Jerson Maciel da Silva e outros dois diretores estão na cadeia da Polícia Federal onde responderão pelos crimes de sonegação fiscal e atentado contra o sistema financeiro. Entre os detidos está o filho do antigo presidente, Jerson Maciel da Silva Jr.

O caso teve o desfecho carcerário pouco mais de um mês depois de a Justiça de Goiás ter decretado a falência do grupo que incluía dez empresas e sete filias pelo Brasil. Desde o início, os promotores encarregados do caso suspeitaram da possibilidade de que os ex-diretores tivessem se aproveitado do dinheiro dos investidores para ficarem ricos em poucos anos depois de forjarem a quebra da empresa.

De acordo com o Ministério Público de Goiás, a grande maioria dos lesados mora no exterior, incluindo Estados Unidos e Portugal. Ainda de acordo com o MP, antes de receber o dinheiro investido, os emigrantes terão de esperar que a verba ainda disponível em conta seja usada para o pagamento de indenizações trabalhistas, impostos federais e estaduais e depois sim, os clientes.
Na prática, isso significa que dificilmente quem depositou dinheiro na confiança de que ganharia o dobro ou o triplo do investido, receberá alguma coisa de volta.

Nem tudo o que aparece na TV é verdade

Para alcançar a confiança dos emigrantes nos Estados Unidos, Jerson Silva e os “companheiros” de empresa usaram de um bem elaborado projeto estratégico de Marketing que incluiu uma grande quantidade de comerciais em televisão mostrando “sadios e fogozos” avestruzes correndo pelo campo como se fossem “grandes pepitas de ouro” dotadas de patas e penas.

Em pouco tempo, a farsa foi desfeita. Em novembro de 2005, o escritório da empresa em Goiânia chegou a ser fechado pelos sócios e vários cheques devolvidos. Notificado do caso, o MP agiu rápido e obrigou os donos a colocarem novamente em funcionamento a Avestruz Master, dessa vez acompanhada por técnicos da Justiça.
Foi o suficiente. Em junho deste ano, a falência e a prisão dos ex-donos foram decretadas.

Investidores foram vítimas fáceis

Segundo a Polícia Federal de Goiás, os pedidos de prisão dos ex-dirigentes da Avestruz Master revelaram ainda outra surpresa. Os três foram detidos por ordem da 4ª Vara Criminal de Pernambuco. Naquele Estado, eles respondem a mais processos que estão sendo mantidos sob segredo de Justiça.

É fácil, então, descobrir que na verdade, os acusados já vinham sendo investigados pela Justiça Brasileira. Uma suspeita que não impediu, em momento algum, que os administradores continuassem lesando as pessoas que acreditaram nas promessas milagrosas de lucro acima do normal.

Entre os investidores fica no ar uma pergunta: por que as autoridades brasileiras não exigem dessas empresas, uma garantia, um valor em dinheiro que seja depositado em conta e equivalente a uma parcela dos investimentos propostos?

Da mesma forma, a legislação poderia exigir a elaboração de um seguro especial que permitisse cobrir os prejuízos em caso de falências mas acima de tudo, que obrigasse essas empresas a prestarem contas de forma oficial dos gastos e receitas que estejam sendo movimentadas ano após ano.

Medidas simples, mas efetivas, poderiam evitar prejuízos assustadores como os da Avestruz Master, e há mais tempo, da Boi Gordo, que também lesou milhares de investidores.

Mas seja sincero: o que você sabe sobre o negócio de avestruzes?

Existe um ditado popular brasileiro que afirma ser o “olho do dono que engorda o boi”. Simples e direto, a sabedoria dos antigos mostra que é preciso colocar o dinheiro ganho em investimentos que garantam segurança e liquidez.

Administradora de empresas com quase 20 anos de experiência no sistema financeiro, Solange Viana, diretora da Imóvel1.com, explica que por “segurança” podemos entender que os valores pagos “estarão sendo usados de forma correta e dentro do que foi planejado para o empreendimento”.

“Quando se vai investir é preciso levar em consideração que quanto maior o lucro proposto, maior será o risco do negócio. Ou seja, se o produto investido propõe resultados muito rápidos, isso implica também em uma grande possibilidade de prejuízo ocasionado por causas naturais ou por confiança quase cega na administração alheia, como no caso das bolsas de valores”, afirma.
Para conseguir uma boa “liquidez”, o investidor deve ter certeza do tempo em que poderá receber de volta o valor investido ou o lucro desejado, finaliza Solange Viana.

No caso da Avestruz Master, os altíssimos valores de retorno e o curto tempo exigido para o recebimento de lucro deveriam ter sido motivos de desconfiança por parte dos investidores que foram encorajados a depositar o dinheiro em criatórios de aves, cuja carne e outros derivados gerariam rendimentos muito acima do normal, uma verdadeira “mina de ouro em forma de bife e ovos para gente de classe A”. A garantia de retorno era feita de própria “boca” por Jerson Silva diante das câmeras de tevê.

Lucro é resultado do estudo e do esforço de muito trabalho e fiscalização

Para Maria Inês Dolci, da Associação Nacional de Defesa do Consumidor, “é preciso que as pessoas procurem ajuda especializada quando desejarem fazer algum tipo de investimento que não faça parte da vida delas”.
Sobre o grande prejuízo causado pela Avestruz Máster, Dolci esclarece que é preciso nunca esquecer que “dinheiro (honesto) não dá em árvore. Resulta de anos de estudo, de altos e baixos na vida profissional”.

Para os especialistas do Procon de Belo Horizonte, quem vive no exterior deve ser ainda mais cuidadoso nos investimentos no Brasil. “A compra de um produto ou serviço a longa distância nunca deve ser feito sem que o investidor verifique a documentação do que está sendo comprado e até mesmo, se o produto está mesmo disponível”, afirma a especialista em Direito do Consumidor, Eliane Figueiredo.

Eliane diz ainda que os emigrantes devem se cercar de todos os cuidados possíveis, de preferência, nomeando um parente ou familiar direto, com a responsabilidade de fazer uma visita ao local onde esteja o produto oferecido. Em caso de algum problema, essa pessoa de confiança deverá ter uma procuração feita no Consulado Brasileiro mais próximo, que permita fazer a reclamação ao Procon em nome do proprietário lesado. “Vale mais a pena tentar evitar o problema do que depois correr atrás do prejuízo”, finaliza Figueiredo.
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