Fonte: Agência BR NEWS Juliana Melo
Os dados do setor de construção civil nos Estados Unidos não são animadores para os trabalhadores brasileiros. Em janeiro, o Departamento de Comércio norte-americano divulgou que as pessoas construirão menos em 2007. Enquanto no ano passado foram feitas 1,643 milhões novas residências, este ano estima-se que as novas unidades habitacionais não ultrapassem 1,408 milhões.
A queda repentina de 14,3% na construção de casas novas, em janeiro, indica que o setor passa por um dos momentos mais delicados, desde outubro de 1997. Quem trabalha na área, já está sentindo os reflexos desses índices.
O construtor Alysson Cleiton trocou Fairview (NJ) por Fort Lauderdale (Flórida) em novembro, na tentativa de fugir da crise. “De dois anos pra cá, meus rendimentos caíram muito e estava sentindo grande concorrência em New Jersey. Estou arriscando a sorte na Flórida, porque sei que é um dos mercados mais promissores do ramo imobiliário”, diz.
Além da mudança de endereço, ele também mudou de função. Em NJ, era dono de uma companhia de construção e agora está trabalhando como empregado. “Trabalho mais, mas também ganho mais. Pra mim, a troca valeu a pena”, afirma. Ainda que seja um imigrante veterano – ele vive há nove anos nos EUA, Alysson considera que vale tudo para não sofrer as conseqüências da crise no bolso. “O setor de construção já foi muito bom. Hoje, dá pra ganhar dinheiro, mas não é como antigamente, por isso, não dá pra ficar com capricho de escolher serviço ou lugar pra trabalhar”, completa.
As estatísticas de todo país revelam que o construtor fez uma escolha sensata. A zona metropolitana de Miami – Fort Lauderdale é uma das mais resistentes à crise. Ainda que os imóveis não tenham acompanhado o ritmo de valorização de 135% dos últimos cinco anos, os preços ficaram estáveis, com uma leve apreciação de 2% em 2006, e as construções continuaram a todo vapor.
Em outras localidades, no entanto, os números não são dos mais positivos. No ano passado, em Miami-Dade, houve uma redução de 20% na aprovação de projetos de casas novas. Enquanto em 2005 foram aprovadas 24.297 plantas, em 2006 foram 19.460 projetos. Em Broward, a aprovação caiu 8% em relação a 2006.
Companhias prejudicadas
Não são apenas os dados econômicos que assombram o setor de construção. O grande número de pessoas dispostas a trabalhar a qualquer custo está afetando os lucros de diversas companhias, que se sentem vítimas de concorrência acirrada e, algumas vezes, desleal.
Alexssandro Vicente, dono de uma empresa de construção em Massachusetts, considera que o cenário de recessão somado à grande oferta de imigrantes é campo fértil para uma competição que não tem limites. “Está muito difícil trabalhar, pois há companhias e trabalhadores que jogam o preço lá embaixo só pra pegar o serviço”, fala.
Vicente ressalta que às vezes o barato sai caro. “Para que consigam trabalhar naquele preço fechado com o cliente, muitos deles não pagam impostos, seguro do empregado e não cumprem as obrigações fixadas por lei. Há, ainda, quem não consiga concluir o serviço: começa trabalhando empolgado, mas depois percebe que não vale a pena continuar por aquele valor e deixa o cliente a ver navios, no meio da obra”, conta. Para reverter essa situação, seria necessário que os clientes observassem qualidade em vez de preço, algo que infelizmente não acontece. Outra saída seria o mercado ter uma melhoria repentina que aumentasse o volume de serviços para imigrantes e suas companhias.
Planos desfeitos
Frente à situação de crise, muitos brasileiros estão revendo seus planos. O capixaba João Gilberto Barros chegou no final de 2005 com a pretensão de ficar três anos, mas está planejando voltar para o Brasil ainda nesse primeiro semestre. “Minhas expectativas foram frustradas. Achei que dava pra ganhar mais, mas não estou vendo vantagem, pois tenho um salário baixo para os padrões daqui e vivo em condições bem ruins”, desabafa. Ele veio para New Jersey a convite de seu primo, mas não está satisfeito. “Acho que peguei a pior fase. Tem dias em que fico em casa, sem fazer nada, porque não conseguimos serviço. Em vez de viver assim, prefiro voltar”.
Nem todos têm a mesma oportunidade de João Gilberto. Ele comenta que para vir para os Estados Unidos vendeu um carro para pagar a travessia pelo México; agora, vai usar parte de suas economias para custear a passagem de volta.
Dois companheiros que vieram com ele estão bastante descontentes, mas não podem voltar porque ainda estão pagando a dívida com os coiotes. “Tem pouco serviço e muita gente precisando ganhar dinheiro. A única alternativa que resta é se sujeitar a qualquer trabalho, porque por menor que seja o pagamento, é sempre alguma coisa”, avalia.