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5/8/2007 - 15:28

Crônicas da Nova Inglaterra


Fonte: Agência BR NEWS

A. Carlos Berardi

Acabo de chegar do Canadá para uma viagem de negócios nos Estados Unidos. Estou na casa de um amigo que fica próxima a Boston. Resolvi tirar um tempinho para conhecer um pouco do pedaço.

Tudo muito diferente da minha cidade, lá pelas bandas das Montanhas Rochosas. Um trânsito rápido, do qual estou desacostumado depois de três anos sem a correria de São Paulo. Parece que o pessoal aqui toma o limite máximo de velocidade como o mínimo, e o resultado é que nas grandes vias me sinto como em uma pista de Fórmula 1. Até os caminhões ultrapassam a gente sem dificuldade nos seus 120 quilometros por hora.

Depois vem os sinais de trânsito, avisos de velocidade - que acho que ninguém olha, placas que te informam em que estrada você se encontra (digo estradas porque muitas vias compartilham do mesmo leito e podem apresentar dois nomes. Se a moda pega no Brasil, teríamos estradas inauguradas toda semana, com dezenas de nomes). Então é preciso ficar atento aos avisos dos cruzamentos com mesma cor e tamanho das placas principais. As saidas são numeradas, mas podem ser A ou B, com conseqüências fatais: errou, sai na cidade errada.

Acostamentos, em geral, suficientes, asfalto em boas condições e, de vez em quando, um carrão da polícia piscando em azul e passando a 180 quilômetros por hora para alcançar algum afobadinho ou atender a algum chamado em virtude de um acidente, que, considerando a velocidade do pessoal, até que não ocorre muitas vezes.

Quase não se ouvem buzinas e de maneira geral existe cortesia no trânsito, mas eu já fui premiado com um carrão grudado a 5 centímetros na rabeira que me acompanhou por uns 15 quilometros. Irritante, decepcionante, assustador. Caramba! Cade o carro da polícia?

Saímos das pistas em geral por curvas amplas, tendo a impressão de que estamos retornando ao ponto de onde saímos (ás vezes, estamos mesmo, só que voltando!). Mas as margens das grandes vias são uma beleza: muito verde, árvores altas, densas, que lembram alguns locais do Brasil. Se puder olhar através das folhagens, poderá vislumbrar casas ou empresas que ficam paralelas às vias, meio escondidinhas.

Dia de calor, quente mesmo. Minha vanzinha, com 14 anos de bons serviços e 260.00 quilômetros de experiência, danou a bomba d’água. Parei, e em alguns segundos armei um congestionamento de 1 quilômetro. Encostei e chamei o socorro local. Nenhum problema, só tive de esperar umas 2 horas porque o patrício nao me achava. Nesse meio tempo, parou o primeiro policial, desceu, olhou, perguntou se estava tudo bem, viu meu colchão e travesseiro e toda a tralha de viagem, e perguntou em tom gozador se eu vivia no carro. Ofereceu ajuda, eu disse que não precisava, agradeci, e ele foi embora.

Meia hora depois, uma senhora, com criança e tudo no carro, parou, e já foi descendo com o celular na mão. Disse a ela que também tinha o meu, que já havia chamado o socorro etc. Ela ofereceu água, chocolate, de novo o celular. Agradeci muito e ela foi embora. Ai, parou outro policial. não desceu, mas perguntou se estava tudo bem, se eu queria me comunicar com alguém, mas recusei, agradecido. Foi embora, sem problema.

Até uma mocinha, em skates, deu uma paradinha e perguntou: "All is right?"
Finalmente o guincho chegou e, enquanto me rebocava, fiquei pensando: Interessante. Ninguém me perguntou a nacionalidade, meu status, se tinha passaporte etc. Mas ofereceram espontaneamente ajuda. E aí a gente começa a entender um pouco mais esse povo americano. Sabem ser solidários quando a gente precisa. Eu, sem falar nada, passei a mensagem de que estava em apuros e eles responderam. Isso é mais que eficiência. É uma sensibilidade e uma educação que acredito são comuns no povo daqui.

Às vezes, a gente fica meio isolado dentro da comunidade verde-amarela, não se comunica bem em inglês, que por acaso é a língua deles, e perde um pouco do contato com a realidade maior, onde eles nasceram, adquiriram sua cultura e vivem. Diferente da nossa, é claro!

Acho que cabe a nós, que nos gabamos de sermos versáteis, flexíveis etc, fazer algum esforço de aproximação, afinal, também temos coisas boas a oferecer, além de trabalho pesado.

Na próxima vez em que eu vir um carro parado na beira da estrada, juro que vou parar e me apresentar: Hello, my name is Carlos, I am brazilian. Do you need help?

* A.Carlos Berardi é empresário e diretor do CEBRAO, Centro Brasileiro de Aculturamento e Orientação.
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