Uma vez alguém me contou uma estória interessante e que, creio, serve para ilustrar bem a situação real em que vivemos aqui. Num dia de muito frio, um passarinho estava à beira da morte, até que veio uma vaca e fez cocô em cima dele. Aquecido, o passarinho começou a cantar e chamou a atenção de um gavião que logo se acercou dele. Com fome por causa do inverno, logo o gavião elogiou o cantar do passarinho, e perguntou se ele não se sentia mal ali envolto em cocô. Disse que ele era um artista e que não deveria estar ali naquela situação. Na realidade, o gavião via no passarinho a sua próxima refeição.
Isto me mostra que nem sempre quem faz cocô em cima quer o seu mal, e via de regra quem quer tirar a vítima do meio do cocô quer o seu bem.
Ao andar pela comunidade, tenho visto muita gente reclamando da exploração a que os brasileiros são submetidos sistematicamente. O carro de um amigo quebrou, e ele o levou num determinado mecânico, que deu um diagnóstico que custaria cerca de US$ 480 para arrumar.
Inconformado, ele levou num outro mecânico. Desta vez, o prognóstico foi outro, totalmente diferente do primeiro e custaria módicos US$ 105. Convencido de que o mecânico estava certo ele mandou arrumar, e dois dias depois numa das vias expressas o carro quebrou e foi embora rebocado, às 11 horas da noite.
Só que o defeito do carro era um prosaico cabo solto, que levou meia hora para ser trocado e custou US$ 65 numa oficina americana. O que chocou o meu amigo foi o fato de os mecânicos brasileiros terem analisado o carro com computadores e mesmo assim não conseguiram detectar o defeito.
E o mau atendimento em restaurantes, lanchonetes e padarias? A realidade é que acabamos por nos acostumar a ser pessimamente atendidos – e a pagar caro, e achar que estão nos prestando um favor, mas destas coisas eu vou falar em outra oportunidade.
Outro dia eu conversava demoradamente com o Fausto da Rocha do Centro do Imigrante Brasileiro, e ele me disse coisas de arrepiar os cabelos. São centenas de brasileiros tapeados e enrolados por outros brasileiros. Gente que contrata, recebe pelo serviço e não paga quem trabalhou, e anda numa boa por aí, como se nada tivesse acontecido.
Outras queixas são por causa de acidentes do trabalho. Quando um funcionário se machuca a primeira coisa que é dita para o acidentado é que ele fale que o acidente não foi trabalhando. Ele é obrigado a dizer que se machucou em outro lugar. Na maioria das vezes é porque o tal patrão não tem seguro contra acidentes do trabalho, mas há quem tenha seguro, mas não permite que o funcionário fale a verdade, para que o custo na renovação seja elevado.
Há centenas de pessoas nesta situação, e que às vezes são ameaçados quando pressionam para receber os salários referentes aos dias parados.
E os golpes, como o da famigerada Mesa da Fé? Quanta ingenuidade achar que era possível investir US$ 1 mil e sair dias depois com sete, oito vezes este valor. Não há investimento honesto no mundo que permita ganhar tanto em pouco tempo. Há alguma coisa de errado nisto tudo. A justificativa maior neste caso, é a de que o negócio era lícito e honesto, porque estava sendo promovido por um pastor evangélico. Ledo engano. O tal pastor se escafedeu – como dizemos lá no Brasil – e dizem, levando uma bolada. E os incautos? Estão por ai se lamentando e passando raiva, com a imensa tapeação a que foram submetidos. Restou raiva, frustração, ódio, rancor e o sentimento de que podiam ir dormir sem este vexame. E o caso Foneclub que deixou muita gente frustrada e desapontada?
Precisamos aprender a respeitar para ser respeitados, precisamos ter noções de cidadania. Não é porque somos – na imensa maioria – indocumentados que não vamos viver com dignidade e altivez. Precisamos ter noção de que temos feito a diferença nesta terra, mas sobretudo, necessitamos nos conscientizar de que precisamos urgentemente aprender as lições que a vida nos dá, ou então seremos sempres os próximos patos a ser depenados.