Fonte: Agência BR NEWS Juliana Melo e Karine Porcel
Desvalorização do dólar, crise no setor imobiliário, adiamento da reforma migratória e elevado custo de vida: o cenário é nebuloso para os imigrantes.
Nos últimos meses, diversos acontecimentos minaram a motivação dos imigrantes e afetaram as planilhas dos negócios brasileiros nos Estados Unidos.
A queda do dólar – que esta semana bateu um novo recorde chegando a R$ 1,90, forçou os trabalhadores a economizar mais do que haviam previsto. Em âmbito nacional, a crise das hipotecas mexeu com os nervos de muitas pessoas que haviam realizado o sonho da casa própria, abalou o mercado imobiliário e afetou os índices da economia norte-americana.
A grande esperança era de que a reforma migratória fosse aprovada e desse um novo impulso à economia. Sem legalização, o cenário ficou nebuloso. Ainda que alguns empresários estejam desmotivados e trabalhadores pensem em arrumar as malas para retornar ao Brasil, a maioria dos brasileiros confia que a crise é passageira e em breve a economia norte-americana retomará o crescimento. Enquanto isso não acontece, qual a melhor saída?
Para o consultor financeiro Roger Correa, a sugestão para vencer esse período é “procurar novos horizontes”. “Uma alternativa a é começar a fazer negócios com outras comunidades, como a americana, a judia, a africana... ou seja, sair da zona de conforto”, aconselha. Na opinião dele, os negócios conduzidos por brasileiros têm como foco os próprios brasileiros e estão limitados a poucos setores da economia. Nos dias de hoje, isso é um problema.
O que esperar do futuro?
O fato da maioria dos imigrantes trabalhar no setor da construção civil aumentou o impacto da crise imobiliária na comunidade. A lógica é simples: a casa não é vendida, o construtor fica sem serviço e não gera empregos, até chegar a um ponto em que o mercado pára.
Segundo Roger, se não houver nenhum avanço nas políticas migratórias nacionais e se o governo não intervir no mercado de real estate, nossa comunidade vai sofrer bastante nos próximos 24 meses. “Estamos no início de uma recessão que pode se estender pelos próximos dois ou três anos”, analisa.
Para vencer a crise e conquistar a confiança dos brasileiros apreensivos com a baixa do dólar, os empresários precisarão ter muita criatividade. Investir em projetos para atrair novos clientes é uma alternativa para que o saldo da empresa não flutue conforme os índices da economia.
Baixa do dólar pode gerar oportunidades
Luiz Pinheiro vive no país há mais de 30 anos e há nove está na Arrow Truck, empresa que comercializa caminhões. Ele conta que ter imigrantes como público-alvo é uma desvantagem neste momento. “O fato dos imigrantes não poderem renovar as carteiras por serem ilegais prejudica as vendas”, diz.
Porém, a queda do dólar foi um fator positivo para a empresa. “Vendemos muito para outros países e nos últimos três meses temos vendido de 1.500 a 2.000 caminhões para a Rússia, Nigéria, Angola, África do Sul e Nicarágua. Eles estão gastando um bom dinheiro porque o dólar está mais barato”.
Se por um lado a queda do dólar afeta o poder de consumo dos imigrantes, por outro, aquece alguns setores. O empresário Armando Christovam, da empresa de mudanças Status Baby, conta que está havendo uma maior movimentação de pessoas querendo voltar para o Brasil. “Devido ao desemprego e à economia americana que não é mais como era há 10 ou 15 anos, muitos estão nos procurando para fazer suas mudanças”, conta.
Para ele, este é um momento em que os empresários têm que persistir e se reinventar. “Temos que ´dançar conforme a música´, portanto, é fundamental procurar alternativas para superar a crise”.
Legalização ajudaria setor de imóveis
A crise no mercado de imóveis poderia ser revertida se a reforma migratória fosse aprovada. Essa é a opinião de Alexandre Quites, loan officer da Alliance Home Mortgage, empresa estabelecida na Flórida. “A reforma daria um novo impulso ao mercado, pois os imigrantes ficariam motivados a investir aqui”, afirma. “A legalização afetaria a economia como um todo: bancos, seguradoras, mortgages, empresas de construção, etc”.
Para Quites, uma atitude do governo norte-americano poderá reaquecer a economia. “Foram anunciados cortes nos seguros e em impostos, mas eles não aconteceram. Enquanto o governo não tomar uma atitude, continuaremos com o setor de imóveis parado”, avalia. Ele acredita que a partir de setembro o mercado começará a dar sinais de melhora, pois é esperada uma resposta do poder público para esse cenário de crise.
Bem longe da crise
O presidente da agência de viagens World Trade Travel adotou uma estratégia simples para não deixar a crise se aproximar de seu escritório em Manhattan. No início do ano, ao ser informado de uma mudança no sistema de comissões das companhias aéreas, Marconi percebeu que seria necessário compensar essa perda, aumentando o volume de vendas. Mas como fazer isso num momento tão crítico da economia?
Ele explica: “eu gastava 4.000 dólares por mês em contas telefônicas; pesquisei, pesquisei e encontrei uma empresa que me fez economizar 70% nas contas mensais”, afirma. O dinheiro economizado teve destino certo: publicidade. “Procuro sempre otimizar as despesas; corto um pouco aqui, um pouco ali, mas invisto o dinheiro que economizei dentro da própria empresa”.
A agência também apostou na diversificação dos clientes. Ainda que a desvalorização do dólar esteja afetando a comunidade brasileira, há outros públicos que continuam adquirindo os produtos e serviços oferecidos pela agência. “A crise está aí mas não está me afetando. Se parar de investir, o telefone pára de tocar, por isso, o jeito é criar oportunidades”, finaliza.