Com a moeda norte-americana valendo menos de R$ 2, imigrantes repensam o destino dos dólares que sobram no final do mês. Enquanto alguns decidem guardar o dinheiro nos EUA, outros continuam acreditando que a remessa é a melhor opção.
A baixa do dólar trouxe uma dúvida comum a muitos brasileiros que ganham mais do que gastam: o que fazer com o dinheiro que sobra? Até um ano atrás, mandar para o Brasil e investir por lá era um bom negócio. Hoje, com a moeda na casa dos R$ 1,76, os dólares remetidos valem apenas 76% a mais que o valor em Real.
É por este motivo que algumas pessoas já deixaram de fazer remessas e optaram por investimentos nos Estados Unidos. O goiano Mauro, morador de Kearny (NJ), pertence a esse grupo. No mês passado, ele pegou os US$ 2,000 que ganhou num trabalho extra, foi ao banco e aderiu a um dos produtos oferecidos.
“Não tenho nada em vista no Brasil, por isso, em vez de mandar o dinheiro pra lá e ter esse valor convertido em menos de R$ 4.000, preferi aplicar aqui mesmo”, diz. Ele comenta que fará isso com todo excedente que receber daqui pra frente. “Acho que fazer remessa nesse momento é perder dinheiro, mas quando tiver algo em vista lá, pego o dinheiro que já rendeu um pouco aqui e, aí sim, mandarei”, explica.
Os bancos que atendem os imigrantes já estão atentos a pessoas com o perfil do goiano, e se preparam para dar orientação adequada. O Millennium bcpbank por exemplo, um dos mais tradicionais no atendimento aos brasileiros, tem vários produtos que podem ser adquiridos pelos clientes que querem fazer o dinheiro render.
Segundo Nuno Salgado, do departamento de marketing da organização, um dos melhores investimentos, hoje, é o IRA – Investment Retirement Accounts. “Nesta altura, em particular, aconselhamos o investimento em Investment Retirement Accounts (IRA), que proporciona aos seus subscritores vantagens fiscais imediatas e permite aos clientes o usufruto de taxas de juros imbatíveis, tanto a 3 como a 8 meses, 4.85% e 4.75% respectivamente”, afirma. “Mas não nos limitamos a IRAs, e deste modo oferecemos os mesmos prazos e taxas para Certificates of Deposits (CDs)”, completa.
Oportunidades na crise
Nem todos estão integrados ao sistema bancário norte-americano. E já que guardar dinheiro embaixo do colchão está fora de cogitação, o melhor a fazer é buscar meios de aplicar bem os dólares excedentes.
A brasiliense Poliana Braga, de Deerfield Beach (FL), aproveitou a crise no mercado imobiliário para realizar o sonho da casa própria. “Eu e meu marido juntamos todas as economias possíveis, e encaramos a compra da nossa casa; graças a essa crise consegui ter meu próprio canto”, fala, satisfeita. Ela parou de fazer remessas quando o dólar caiu para menos de R$ 2. “Decidi dar uma pausa e esperar essa instabilidade passar. Tenho confiança que logo, logo, tudo voltará ao normal”.
Poliana está há 15 anos nos Estados Unidos e passou por momentos em que a moeda americana estava quase quatro vezes mais valorizada que o Real. Há, porém, quem não viveu isso, porque chegou recentemente. Mesmo vendo o dólar declinar, muitas dessas pessoas não desanimam e consideram que ainda vale a pena mandar dinheiro para o Brasil.
Apesar de tudo, remessas
Edson Pereira trabalha com colocação de pisos há dois anos na Flórida e não se abateu com a variação cambial. “No Brasil eu ganhava menos de R$ 1.000. Aqui, mesmo com essa tal crise que tanto falam, consigo pagar minhas coisas e ainda sobra mais de US$ 700 por mês”, conta. Ainda que isso valha aproximadamente R$ 1.200, Edson diz que é um excedente que ele jamais conseguiria garantir no Brasil. “Estou fazendo minha poupança lá, porque é lá que vou construir minha casa e é pra lá que eu vou em breve; na minha opinião, continua valendo a pena fazer remessas, pois US$ 700 dólares aqui não é nada, mas R$ 1.200 lá é muito”, observa.
E é por haver um grande número de brasileiros que pensam como Edson que as lojas de remessas não sentiram tanta redução no volume de dinheiro enviado ao Brasil. Em consulta a duas operadoras, ambas disseram que a diminuição não foi significativa. “Quem tem obrigações no Brasil, como pagamento da casa, do carro, não deixa de mandar, e mesmo quem não tem obrigações, acaba fazendo remessas”, afirmou um dos empresários consultados.
De acordo com o entrevistado, que preferiu não se identificar, muitas pessoas mandam dinheiro para o Brasil pelo fato de ser indocumentado. “Esses boatos de prisões, batidas da imigração, deixam o pessoal inseguro, por isso, a maioria que está indocumentado não pensa duas vezes e manda o dinheiro pro Brasil mesmo, por ser mais garantido”.
Com a palavra, o especialista
Há quem continue fazendo remessas, outros que desistiram. Mas, afinal, o que pensam os especialistas?
O economista João Gilberto Vilavelha, é consultor financeiro de uma multinacional de São Paulo e, por viver um pouco cá, um pouco lá, conhece bem a realidade da economia norte-americana. Para ele, há dois cenários distintos: o do imigrante legal e o do indocumentado. “Se a pessoa for residente legal, não tenho dúvidas de que o melhor a fazer é investir nos Estados Unidos mesmo, numa aplicação bancária de alta rentabilidade, por exemplo”, diz. “Mas se for indocumentado, a remessa continua a valer a pena, afinal, não há muitas opções de aplicação boas nos Estados Unidos direcionadas a esse público”.
Ele considera que os imigrantes que estão ilegais no país estão mais vulneráveis a cair em armadilhas, como aconteceu no caso do mercado imobiliário, em que foram concedidos empréstimos de alto risco que levaram muitos a perderem suas casas e seu sossego. “A maioria das instituições sabe que esse público é de alto risco, afinal, por não ter papéis pode sair do país a qualquer momento, ou até não honrar seus compromissos”. O economista alerta: “é bom ficar atento às oportunidades de investimentos que não levam em conta a condição de indocumentado, pois há mais chances de se transformar num problema futuro”.
Para quem continua remetendo dinheiro ao Brasil, João recomenda: “há várias opções interessantes porque a economia brasileira está boa, então, vale a pena, por exemplo, pensar num negócio próprio em áreas ligadas à importação. O que vale é reverter as oscilações da economia a nosso favor”, conclui.