Imigrantes que têm imóveis de aluguel e negócios próprios no Brasil, aproveitam a valorização do Real em relação ao Dólar para complementar a renda mensal e sustentar o sonho de permanecer nos Estados Unidos.
Enquanto muitos brasileiros estão lamentando a queda do dólar e a baixa no mercado de trabalho, um grupo de imigrantes parece não se importar muito com a oscilação da moeda. Essas pessoas fizeram investimentos no Brasil no passado e tem rendimentos em real.
Para eles, apesar da crise norte-americana que atinge em cheio os sonhos de quem vive nos Estados Unidos, o rendimento obtido no Brasil compensa a baixa nos ganhos daqui.
Dinah Leme, moradora de Boston (MA) há 19 anos e dona de uma companhia de limpeza, está nesse grupo. Apesar de ter perdido alguns clientes nos últimos meses, ela não teve que cortar gastos em casa, pois tem renda de imóveis alugados no Brasil. “Há mais ou menos seis anos, comprei um pequeno prédio comercial em Vitória e aluguei as salas. Até um ano e meio atrás, não me animava em converter para o dólar o que ganhava lá, mas hoje em dia esse dinheiro é util aqui nos Estados Unidos”, conta a capixaba.
Ela exemplifica: “uma sala que alugo por R$ 500 no Brasil, rende 300 dólares hoje em dia”. Dinah conta que na época em que adquiriu este imóvel deixava todo dinheiro em aplicações bancárias, no Brasil. “Desde novembro do ano passado, tenho convertido 30% do meu rendimento do Brasil para o dólar. Apesar de ter perdas, afinal, o dólar ainda está mais valorizado, vale a pena porque tenho contas aqui que não posso desonrar”, observa.
O mineiro Lauro Soares também está aproveitando a baixa do dólar. Ele é dono de uma loja de acessórios para veículos em Belo Horizonte e sócio de uma franquia de cursos de informática na capital mineira. O lucro obtido nos empreendimentos fica por lá mesmo e é revertido em melhorias que incluem compra de mais produtos ou atualizações.
“Tive sorte de investir em duas áreas em que os valores dos produtos variam conforme o dólar. Aproveitamos a baixa no ano passado para renovar os monitores e processadores da escola de informática e na loja de acessórios estamos vendendo muito, pois diversos produtos importados caíram de preço, tornando-se mais acessível para o consumidor brasileiro”, conta. “Antes todo investimento que era feito nesses negócios saia do meu salário nos Estados Unidos, pois eles não giravam dinheiro suficiente, mas hoje, felizmente, as coisas mudaram e já está dando pra gente separar uma parte do lucro para deixar a loja e a escola cada vez melhores”.
Segundo Lauro, apesar de as coisas estarem indo bem no Brasil, ele não usa o que ganha lá para pagar suas contas norte-americanas. “Aqui eu trabalho com construção e apesar das coisas estarem fracas, estou vivendo bem. Hoje, não posso me dar ao luxo de mandar a mesma quantia de dinheiro para o Brasil que mandava antes, mas consigo manter o mesmo padrão, sem dificuldades”.
Aprendizado no passado
Tanto Lauro quanto Dinah tem um ponto em comum em suas histórias: ambos vivem há mais de 15 anos nos Estados Unidos e já passaram por situações em que o dólar se desvalorizou. Em vez de fazerem as malas e partirem para o Brasil, eles confiaram que a economia voltaria a se fortalecer e persistiram no projeto de vida na América.
Dinah tem uma recordação bastante viva. Ela comenta que um dos momentos mais difíceis de sua trajetória nos Estados Unidos aconteceu entre 1994 e 1995, quando o dólar chegou ao valor de R$ 1. “Aquela época não foi fácil, pois tinha muitas contas no Brasil, mas não quis voltar e superei. Em vez de desistir, preferi tirar uma lição”, diz. “Na primeira oportunidade que tive, quando vi que o dólar começou a subir, corri pra investir o dinheiro que eu tinha guardado em imóveis no Brasil. Foi assim que fui construindo meu patrimônio. Hoje, se ver que as coisas estão muito complicadas mesmo, eu posso até voltar, mas não vou voltar com uma mão na frente e outra atrás”, analisa.
Lauro também diz que aprendeu com as crises do passado. “A gente vai seguindo o exemplo de quem se deu bem. Essas pessoas transformam problemas em lições e tentam achar uma maneira de aprender, mesmo quando tudo parece conspirar contra a gente”, fala. “Sou otimista, acho que as coisas vão melhorar, sim, temos que ter paciência e aproveitar esse período de calmaria no mercado para pensar no futuro, planejar o que queremos e como vamos chegar lá. É um bom momento para planejar, afinal, quando o mercado está acelerado, nunca achamos tempo pra nada”, completa.
Dólar x Real
No início desta semana, o dólar retomou a tendência de queda em relação ao real. Na segunda-feira, a moeda norte-americana foi cotada a R$ 1,671. Segundo especialistas, este valor é resultado, entre outros fatores, das altas de preços de produtos básicos (commodities) agrícolas, metálicos e do petróleo, que ajudam a fortalecer as moedas de países emergentes exportadores. No acumulado deste ano, a taxa cambial cedeu 6%, para seu menor nível desde 18 de maio de 1999.
Há muitas dúvidas em relação à valorização do real frente ao dólar, por este motivo, preparamos um informativo simplificado sobre o assunto. Confira:
Qual o motivo da valorização do real?
A valorização da moeda brasileira está ligada a um processo econômico complexo. Além do queda do dólar em relação a diversas moedas estrangeiras, o real valorizou porque aumentou a confiança externa no Brasil e na taxa de juros praticada internamente. Como conseqüência, esse processo trouxe o aumento das reservas externas do Brasil e a redução do preço de produtos importados no mercado interno.
Risco-país e queda dos juros
À medida que os investidores internacionais depositam mais confiança na economia brasileira, mais dólares entram no Brasil. Isso colabora para a redução da cotação do dólar. Muitos investidores estrangeiros aplicam dinheiro no Brasil apenas em busca dos lucros trazidos pelos juros altos praticados aqui. Com mais dólares na economia, a cotação da moeda cai. Por isso, se os juros caírem de maneira mais acentuada, analistas afirmam que há uma tendência de valorização do dólar.
Maior fluxo de dólares
A intensa entrada de dólares na economia brasileira está ligada, portanto, ao aumento da confiança externa no país e na alta taxa de juros. Os investidores internacionais mandam seus dólares ao Brasil porque unem aqui o útil ao agradável: uma economia mais confiável e taxas de juros mais altas.
Analistas afirmam que, não fossem as constantes compras de dólares pelo Banco Central, que são uma arma para reduzir a quantidade de moeda americana em circulação no país, a cotação do dólar poderia estar bem mais baixa.