Circulando por lugares onde há brasileiros em profusão é possível constatar que há um sentimento de esperança e de medo. Há uma expectativa generalizada de que alguma coisa de boa aconteça, ao mesmo tempo em que há o medo de que tudo aconteça de mal. Basta alguém ser preso por qualquer motivo, especialmente os que são procurados pelo ICE por causa de ordens de deportação pendente, e parentes, amigos e vizinhos que estão na mesma situação se assustem e se abatam com a situação.
Pior que a expectativa é o silêncio que às vezes preocupa mais do que a expectativa. Com isto, muitos brasileiros estão se cansando de esperar e indo embora ou se programando partir. É gente que no Brasil sempre viveu vidas dignas com todos os seus documentos e obrigações em ordem, e aqui vive uma vida de indigência sem a perspectiva de que algo de bom aconteça num curto espaço de tempo.
Gente que sai para trabalhar e não sabe se vai voltar para casa no final do dia, pois pode ser parado pela polícia e dali mesmo ir preso sem a expectativa de sequer se despedir. Outro dia, um dos milhares de brasileiros que moram em Massachusetts saiu bem cedo para trabalhar. Algumas milhas adiante, fez de conta que parou num STOP e seguiu adiante, sem se dar conta de que um carro de polícia estava parado do outro lado da rua, esperando que alguém mais apressadinho transgredisse para ser apanhado.
O brasileiro foi parado, levado para a Station Police, e lá foi constatado que ele devia corte de imigração. Com a esposa grávida de cinco meses, o futuro que o espera é a deportação e a frustração de que ou o seu filho nasce aqui com ele ausente, ou não será um americano como ele e a esposa esperavam, já que a esposa quer ir embora também. Justo ela que a vida inteira alimentou o sonho de morar nos Estados Unidos.
Há aqueles que mesmo não devendo corte alguma, se vêem às voltas com a lei por não terem o direito de dirigir e precisam trabalhar, e se preocupam em não transgredir nenhuma lei de trânsito para não serem apanhandos por algum policial de plantão.
Há brasileiros que esperam há anos por uma boa nova, que lhes permita viver aqui legalmente, e ano após ano alimentam a expectativa de que isto aconteça, e com isto vão ficando. Só que nada acontece, ao contrário, fica cada dia mais distante o sonho dourado da América.
Não custa esperar um pouco mais, ainda que em algum tempo todos se frustrem, mas já que estamos aqui não custa nada criar mais uma expectativa, em torno de algo que não se sabe se virá ou não.
O medo deve ser banido, e mesmo que tenhamos que viver tensos e preocupados com o nosso cotidiano cheio de incertezas, a vida vale a pena ser vivida, apesar de todos os pesares.
Ir embora pode parecer que se está entregando os pontos e admitir que a situação ficou insustentável – e para alguns é mesmo insuportável viver à margem de toda a sociedade americana e de tudo o que ela oferece de bom. Há por exemplo, uma multidão de brasileiros que sai do high school e não pode ir para a universidade por causa da condição de indocumentados.
Mesmo assim não perdem a esperança de que um novo governante consiga compor com o Congresso dos Estados Unidos uma saída que favoreça todos os milhões de indocumentados, torcendo para que não haja nenhum incidente pelo caminho que prejudique a espera e faça retornar ao Brasil a contragosto. Por isso é que todos os cuidados são poucos, mesmo que lá fora tudo pareça calmo demais.