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1/3/2008 - 16:27

Made in e os consumidores indocumentados


Fonte: Agência BR NEWS

Jehozadak Pereira

Um garoto de sete anos, filho de um casal de amigos, outro dia ganhou da mãe um presente que prontamente recusou e o motivo provoca risos até hoje. - É made in China, mamãe! Não se sabe ainda o que o motivou a reagir daquele modo, mas vale como ilustração de como milhares de produtos made in tem invadido os Estados Unidos e o mundo de uma forma cada vez mais abrangente.



Nas lojas e magazines americanos é possível comprar produtos brasileiros – roupas de cama, banho e mesa, sapatos, que rivalizam com os italianos e agora os chineses que confeccionam produtos tão bons quanto caros, que estão nas prateleiras à disposição do ávido consumidor que compra sem se dar conta de que está levando para casa uma mercadoria que gerou empregos e divisas para outro país.

Somente para ficarmos com os produtos brasileiros, quanto custaria para um consumidor brasileiro o sapato que é vendido por US$ 100 no mercado americano? E os outros produtos? Mais ainda, quanto custaria o mesmo produto se fosse comercializado nos estabalecimentos brasileiros que existem às centenas na comunidade brasileira? Nestas, o acesso seria restrito somente aos brasileiros ou a poucos de diferentes nacionalidades.

É de se pensar que estes produtos made in tem muito mais sorte do que pessoas, seres humanos, homens e mulheres, pois precisam somente de uma guia de importação para entrar – e ficar por aqui.

Claro que não estamos comparando pessoas com mercadorias, mas que estas tem melhor sorte, isto tem sim. Gente que imigra para a América é tratada como uma mera estatística e nada mais, e é, sim, discriminada, perseguida, desprezada, ignorada pelo sistema repressor que a obriga a ficar nas sombras e nos desvãos da vida. Este assunto vai dominar 2008, por causa da eleição americana, cujos candidatos darão tratamentos diferentes ao tema. Uns o abordarão com sensibilidade enquanto que outros o tratarão com a hipocrisia de sempre, ou seja, com um discurso idiota que visa agradar ao eleitor que é contrário ao tema. Eleitor, aliás, que precisa ser convencido a ir votar.

Quem compra produtos made in desconhece o que se passa na China por exemplo, na questão dos direitos humanos que não são respeitados, ou no caso do Brasil, com a exploração do trabalho infantil e do não pagamento de impostos entre outras infrações. Não há uma consciência coletiva de como o assunto deve ser tratado, a exemplo do que fez a Levi’s, a maior fabricante de jeans do mundo, que deixou a China anos atrás por causa da violação dos direitos humanos.

Não se está pregando um boicote aos produtos made in, mas sim, uma reflexão de como são tratados as mercadorias e o ser humano que um dia ousou imigrar para a América. Claro, que as fronteiras e o direito de o país receber imigrantes deve, sim, ser respeitado, inclusive de receber o que somente lhe interessa, mas como fica o esforço, o sangue e o suor de quem também contribui para o fomento da economia americana?

Quanto há de interferência estrangeira na vida e na sociedade americana? É possível mensurar isto? É possível sim, basta ir a qualquer supermercado, loja ou magazine para ver que produtos com a etiqueta assembled in USA são cada vez mais raros, ao passo que os made in estão cada vez onipresentes.

A economia de mercado rege – e manda cada vez mais, e a globalização definitivamente tomou conta de tudo, principalmente porque movimenta bilhões de dólares anuais, e por isto mesmo domina. Ao passo que pessoas que são muito mais importantes do que mercadorias são tratados de forma desumana e relegados a um plano inferior, ignorando-se que são eles também, mesmo indocumentados, grandes consumidores dos tais produtos made in.
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