Político é político em qualquer lugar do mundo, inclusive nos Estados Unidos. Uma das características predominantes de todo político que se preze é a hipocrisia, não importa em que situação. Eleger-se a qualquer preço e com a maior quantidade possível de promessas que nem sempre serão cumpridas é o objetivo da maioria deles.
Outra coisa é pregar a moralidade para os outros e se excluir automaticamente. Este parece ser o caso de Eliot Spitzer, ex-governador democrata de New York, o Cliente # 9 pilhado numa investigação federal que o envolve com uma rede de prostituição de luxo, onde estima-se que ele tenha gastado cerca de US$ 80 mil.
Conhecido pelo seu discurso moralista e exasperado em prol da ética, da moralidade e dos bons costumes, Spitzer fez carreira como secretário da Justiça do Estado de New York e se notabilizou por perseguir contraventores financeiros em Wall Street, o centro financeiro da América e do mundo.
Lacônico e abatido Spitzer renunciou ao cargo na quarta-feira dizendo que “Eu mantenho a crença de que, como seres humanos, nossa maior glória não consiste em nunca cairmos, mas sim em nos levantarmos novamente a cada queda”.
Pressionado pelos parlamentares republicanos a renunciar, ele não teve outra alternativa a não ser pedir para ir embora. Resta saber se ele vai conseguir um dia retomar a sua carreira política depois deste escândalo moral, justo ele que era tido como um dos mais promissores políticos americanos da nova geração.
No comando da secretaria de Justiça não dava tréguas a ninguém – muito menos aos seus funcionários que segundo ele tinham que “agir” e não “pensar”. Intransigente com tudo e com todos que se parecessem corruptos e espertalhões, Spitzer não somente queria expô-los, mas usando as suas palavras “destruí-los” além de passar por cima como um “rolo compressor”.
Com isto, conseguiu angariar antipatia e inimigos poderosos que o colocaram na alça de mira, e que não perderiam a oportunidade de tripudiar em cima dele ao menor deslize, como parece ser o que ele cometeu agora.
O ex-governador de New York se deixou apanhar como um menino principiante e ingênuo, que junta uns trocados para ir na zona mais próxima em busca de aventuras e experiências sexuais com prostitutas escondido dos parentes. Só que no caso de Eliot Spitzer as prostitutas custam caro, e lhe custaram o cargo, a dignidade e o caráter mesmo porque a reputação parece definitivamente ter sido jogada no lixo.
Talvez a psicologia explique a atitude do governador e de outros homens públicos que se fazem passar por moralistas quando na realidade querem se esconder atrás de uma máscara que mais dia menos dia vai cair.
Um destes pseudo-moralistas é o pastor americano Ted Haggard, ex-presidente da Associação Nacional de Evangélicos e ex-ministro da New Life Church, que renunciou aos cargos após ter sido acusado por um massagista de ter pago para fazer sexo com ele, de quem também comprou drogas. O ex-pastor de 51 anos, era um ferrenho opositor do casamento gay e dos direitos dos homossexuais, assumiu ter contratado um garoto de programa com quem manteve relações sexuais durante três anos.
Haggard, que representava a voz de 45 mil igrejas, com mais de 30 milhões de fiéis, pediu desculpas à família, aos seus liderados e disse não ter explicações para os seus atos.
Todos os dias milhões de homens ao redor do mundo se relacionam com prostitutas e em relações homossexuais, mas nem todos são empedernidos defensores da moralidade como Eliot Spitzer e Ted Haggard, que caíram exatamente no campo de batalha que eram as suas respectivas bandeiras – a probidade moral. Deixaram de ser autoridades para ser meros clientes do que combatiam, apesar do discurso.