Passado o choque inicial pela tragédia do vôo 3054 no dia 17 passado, as atenções se voltam para a leitura das caixas pretas do avião acidentado, e sobre o que elas vão revelar. Nenhuma hipótese está descartada e todas devem ser consideradas como fatores prováveis para o desastre que matou 199 pessoas.
Nos dias subseqüentes ao acidente, todos os dedos foram devidamente apontados para o governo federal, e em especial em direção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que optou por somente se manifestar três dias depois, segundo dizem porque tinha um tersol e não queria expôr sua imagem com o olho inchado.
À parte os gestos grosseiros de funcionários do governo, como Marco Aurélio Garcia – que ninguém sabe ao certo que funções desempenha, e de seu assessor de imprensa, que a exemplo dos ministros Marta Suplicy e Guido Mantega, não foram demitidos depois de terem dado declarações infelizes e inoportunas, a crise aérea impõe transtornos ao consumidor.
No vácuo do silêncio presidencial, a imprensa tratou de repercutir devidamente cada detalhe mórbido do desastre. A Rede Globo, em especial, colocou no ar imagens do Airbus A320 passando em alta velocidade pela pista do Aeroporto de Congonhas a caminho de se espatifar no prédio de cargas da TAM.
Por que os pilotos não conseguiram parar o avião? Falha nos freios? Falha mecânica? Falha humana? Defeito estrutural na pista recém-reformada? Falta do grooving – palavra desconhecida e que foi definitivamente incorporada ao cotidiano do povo brasileiro, e até um defeito no reverso que foi prontamente justificado pela TAM com as explicações de que os procedimentos sugeridos no manual do fabricante da aeronave haviam sido cumpridos a risca, e que gerou os tais gestos obscenos e desrespeitosos de Marco Aurélio Garcia. Todas as hipóteses são plausíveis e, ao mesmo tempo, podem ser refutadas tecnicamente.
Até que se investigue e saiba ao certo o que causou a tragédia, tudo não passará de mera especulação. Contudo, neste acidente – que é o ápice do caos aéreo que se instalou no Brasil, a imagem do governo como gerente da crise está definitivamente arranhada e comprometida aos olhos do mundo, pois o Brasil é o único país que teve em menos de um anos dois acidentes aéreos devastadores – 10 meses para ser exato – e mortíferos em tão curto espaço de tempo.
O presidente Lula teve todas as oportunidades de corrigir a rota da crise, mas optou pela letargia administrativa de não demitir os responsáveis. Ao mesmo tempo, contemporizou para não ter que tirar aliados, nem ficar mal nas alianças políticas que lhe dão sustentação.
Tivesse feito isto e não seria o primeiro apontado como pivô de todo problema causado sobretudo, por gente despreparada que há anos não passa por nenhum curso de reciclagem, equipamentos velhos, ultrapassados, inoperantes e sucateados pelo descaso e imobilidade da máquina administrativa.
Sem alguém que pudesse ser apontado como o responsável pela crise, voar no Brasil se tornou uma aventura perigosa e perversa, que deixa cada vez mais aviões no chão do que nos ares, e faz com que os passageiros prefiram viajar de carro e ônibus. Não se sabe ainda quais serão os reflexos financeiros sobre a economia, sobre as empresas e quais as conseqüências que tudo isto trará para o país, que definitivamente tem a sua imagem comprometida diante da comunidade internacional.
Claro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode – e não deve – ser acusado como o único responsável por todo este transtorno e pelas centenas de mortes, mas ele é o único que poderia ter tomado atitudes que evitariam a crise. No entanto, Lula preferiu o caminho da omissão e da indiferença que cobrou o mais alto dos preços – vidas humanas, que não poderão ser reparadas jamais.