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12/13/2007 - 14:13

Pesadelo de quem voltou


Fonte: Agência BR NEWS

Juliana Melo

Socióloga mineira realiza pesquisa com imigrantes que voltaram e, em resultado parcial, constata: 82% não têm idéia do que vão fazer no Brasil. Para pesquisadora, impactos do retorno aparecerão dentro de dois meses. Muitos já se arrependeram de ter deixado os EUA.



Todo fim de ano é igual. Milhares de brasileiros fazem as malas e partem para o Brasil, depois de terem vivido dois ou mais anos nos Estados Unidos. Este ano, no entanto, tem uma particularidade: além dos imigrantes que já fizeram seu “pé de meia”, uma leva grande desistiu do sonho americano devido à crise econômica e à falta de perspectivas de legalização.

Mas, afinal, como estão e o que pensam esses brasileiros que decidiram seguir viagem?

A resposta está sendo buscada pela socióloga Sueli Siqueira, da Univale (Universidade Vale do Rio Doce), de Governador Valadares. A pesquisadora iniciou em novembro um estudo com imigrantes que retornaram ao Brasil a partir de setembro. Os dados parciais do levantamento – que será concluído em março de 2008, são preocupantes: 82% não têm idéia do que vão fazer daqui pra frente.

“Esse é um período do ano em que normalmente muitos brasileiros voltam, alguns para passear, outros para ficar, porque no inverno a oferta de trabalho é reduzida”, diz. “Este ano, porém, constatei na pesquisa parcial que 5% voltaram a passeio, 10% em definitivo porque já tinham planejado, e 85% não pretendiam retornar, mas consideraram que ficou difícil continuar nos EUA”.

Sueli afirma que desses 85% que voltaram porque a situação econômica estava complicada, 43% acharam que os ganhos não estavam sendo suficientes e 37% embarcaram por medo de serem presos pela imigração.

“61% dos que estão retornando são indocumentados e 39% têm vistos ou greencards”, conta. “18% têm investimentos consolidados na região, ou seja, têm renda porque investiram em comércio, imóveis e outros. Os outros 82% não têm idéia do que vão fazer, pois não tinham planejado voltar”. E é nesse grupo que residem as incertezas e dúvidas.

Sueli explica que dos imigrantes que não tem idéia sobre o futuro no Brasil, 60,5% não tem dinheiro guardado para que possam investir em um negócio próprio. “A perspectiva é complicada. Hoje, esses emigrantes que voltaram estão passeando, matando as saudades da família, descansando. Mas em fevereiro, março, 82% não saberão o que fazer. O que vai acontecer com eles?”, questiona.

As consequências negativas desse retorno em massa devem aparecer dentro de alguns meses, já que o mercado de trabalho brasileiro é limitado e os ganhos são mais baixos que os obtidos no exterior.

Para alguns, futuro já está nebuloso

Apesar de terem tido vários motivos para voltar ao Brasil, diversas pessoas já estão sofrendo com as incertezas do presente e do futuro. É o caso de Natália Santana, que foi para Ipatinga em julho, depois de morar dois anos em Fairview (NJ). Ela diz que já se arrependeu. “Em NJ, eu ganhava cerca de 400 dólares por semana. Aqui, consegui arranjar um emprego de auxiliar administrativo numa firma e meu salário é de 700 reais”, conta.

Segundo a jovem, é difícil se readaptar. “Achei que seria mais fácil, porque viveria sem aquela pressão de ser ilegal, perto da família, com mais conforto, mas o Brasil tem os pontos fracos que fazem a gente repensar a decisão”, diz.

Luiz Fernando Louveira, de Curitiba (PR), aponta um outro ponto negativo do retorno. “Passei dois anos em Newark trabalhando de manhã até à noite em construção, e nem pensei em estudar. Só que uma coisa é trabalhar de pedreiro lá, outra é aqui. Eu ainda não arrumei emprego porque me nego a trabalhar na construção no Brasil”, destaca o jovem, que voltou no final de outubro.

Para ele, as coisas no Brasil ficaram pior do que estavam. “Antes de ir para os EUA, tinha meu emprego numa empresa e minha cabeça era de um jeito. Agora, voltei desempregado, sem dinheiro, e estou defasado. A única coisa que me restaria seria trabalhar como pedreiro, pintor, um serviço que não é bem remunerado aqui, por isso, vou ter que pensar em alguma coisa, como estudar pra recuperar o tempo perdido. Se não der, já decidi que vou pra Europa”, completa.

Segundo Sueli, o sentimento de derrota persiste em muitos imigrantes. “Eles falam: ‘foram dois anos perdidos de minha vida, bem agora que eu poderia começar a juntar dinheiro, tive que vir embora’. A maioria não queria ter voltado, mas as condições os obrigararam a fazer as malas”, observa. Ela Siqueira acredita que, assim como Louveira, uma boa parte dos que retornam não ficarão no Brasil. “Eles precisam ter apoio psicológico, ou então, reemigrarão”, finaliza.

Entidades se organizam para ajudar retornados

Na região de Governador Valadares, várias iniciativas foram criadas nos últimos meses para apoiar os brasileiros que retornaram. É o caso da Aspaemig – Associação dos Parentes e Amigos dos Emigrantes do Brasil, do Ciaat – Centro de Informação, Apoio e Amparo à Família e ao Trabalhador no Exterior, e do Programa Emigrante Cidadão (PEC) da Prefeitura local.

Apesar de terem o propósito de ajudar, a socióloga Sueli Siqueira salienta que essas iniciativas terão resultados a médio prazo. “Esses projetos estão em fase inicial. O retorno de tantos imigrantes exige que o poder público crie algum mecanismo imediato”, ressalta.

Ela exemplifica: “desses 82% que voltaram por força das circunstâncias, 39,5% tem capital de 40 a 50 mil reais para realizar investimentos na região, o que é pouco. A saída seria estimular o associativismo, para que eles tenham capital suficiente para fazer investimentos que dêem retorno”.

De acordo com Dirley Henriques, sociólogo da Prefeitura de Governador Valadares, o poder público está ciente da volta de tantos brasileiros e vêm criando programas para auxiliar os imigrantes. “O índice de falências entre migrantes chega a 65%. Uma das causas é a falta de conexão com a realidade local”, ilustra. Para ele, é preciso adaptar o empreendedorismo conquistado nos EUA à realidade brasileira e, para isso, está trabalhando em uma iniciativa que se chama "Cadernos para o Desenvolvimento", um projeto que fornecerá orientação básica sobre novos negócios aos imigrantes retornados. “A idéia é diminuir o número de negócios fracassados”, completa.
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