Outro dia, numa das muitas cidades onde moram brasileiros no entorno de Boston, um policial retirou à força, de dentro de um carro, uma mulher de origem hispânica que havia xingado um outro policial. A mulher parara em fila dupla na saída da escola numa rua de grande movimento, acentuado por causa da demolição de uma casa em frente à escola, e onde estavam manobrando gigantescos caminhões retirando entulho.
O policial pediu que a mulher movesse o seu carro e foi desobedecido. Pediu novamente já com a paciência no limite, pois atrás do carro estacionado formava uma fila imensa. Foi ignorado, e em seguida xingado. Foi o que bastou para que acionasse a central e logo chegou outro policial que tratou de arrancar a mulher de dentro do carro e algemá-la diante de todos.
Logo, algumas brasileiras que também esperavam a saída dos seus filhos, tomaram as dores e disseram que ela estava sendo presa porque era uma imigrante, ignorando por completo a situação que a própria mulher provocara. O ambiente no local alcançou um nível de tensão tal que o policial tratou de fazer calar as mulheres que reclamavam de discriminação, sem a menor razão.
Fatos como estes repetem-se em toda a América diariamente, com pessoas que deliberadamente desobedecem ou contestam ordens das autoridades policiais e por causa disto são presos sem a menor cerimônia. Há quem pare em lugar proíbido, dirija sem habilitação ou embriagado, ultrapasse o limite de velocidade entre outros delitos comuns.
Há quem se envolva em brigas e confusões e por aí afora. Ao que se vê as autoridades não perdoam ninguém, pois frequentemente lemos ou assistimos que celebridades como Mel Gibson e Kiefer Sutherland, o Jack Bauer da série “24 Horas”, Paris Hilton e Joan, ex-mulher do senador Teddy Kenneddy, foram presos por dirigirem embriagados e levados à corte mais próxima.
Voltando às brasileiras que reclamaram de discriminação, é normal que ajam assim, talvez pelo desconhecimento ou ignorância de como funcionam as leis e a cabeça das autoridades que são legalistas no sentido de cumprirem e de fazer cumprir as leis, mesmo que muitas vezes se excedam no cumprimento dela, como pode parecer que foi o caso narrado acima.
O certo é que há tensões em todos – autoridades e em quem transgride deliberadamente ou não. Analistas do comportamento humano dizem que não está longe o dia em que vão se repetir os conflitos raciais acontecidos em Los Angeles em 1991, por causa da absolvição dos policiais que bateram em Rodney King depois de pará-lo. King foi agredido por golpes de cassetetes, e chutes, que provocaram fraturas no crânio e seqüelas no cérebro e nos rins.
O espancamento foi gravado por uma câmera de vídeo amadora, e as imagens acabaram sendo exibidas em todo o mundo, tomando ares de escândalo.
A absolvição dos policiais acusados provocou ataques fúria, saques, vandalismo e violência que deixou 55 mortos e cerca de dois mil feridos, causando prejuízos avaliados em US$ 1 bilhão.
A falta de uma nova lei de imigração e a uniformidade de procedimentos de como policiais de todo o país devem tratar imigrantes indocumentados geram tensões desnecessárias e não é difícil prever que uma hora qualquer uma palavra mais ríspida de qualquer lado vá gerar um conflito de grandes proporções tal como o que aconteceu na França em 2005, onde uma banalidade foi o pretexto que culminou com prejuízos para todos, principalmente para o governo.
A mulher que parou o carro em fila dupla foi presa, porque desobedeceu a ordem da autoridade, e não porque tinha origem estrangeira. Foi presa porque xingou o policial, e não por causa do seu sotaque. Foi presa porque procurou confusão com a pessoa errada. Só isto.