Estudo traça perfil da comunidade imigrante brasileira. Nível mais alto de educação e grande número de trabalhadores autonômos distinguem o grupo de outras comunidades latinas. Participação brasileira na economia de alguns estados também é significativa.
Embora freqüentemente classificados como imigrantes hispânicos, os brasileiros que vivem nos Estados Unidos formam um grupo com características particulares, que os distinguem de outras comunidades latinas e os colocam numa posição de grande importância para muitas cidades americanas.
A constatação é resultado de um estudo de autoria de dois brasileiros – Álvaro Lima, Diretor de Pesquisas Econômicas e Sociais da Prefeitura de Boston, e Eduardo Siqueira, Professor Assistente da Universidade de Lowell (MA), que será publicado pelo Instituto Gaston, da Universidade de Massachusetts.
“Brazilians in the U.S. and Massachusetts - A Demographic and Economic Profile” utiliza dados do Censo americano de 2000 para traçar um perfil dos brasileiros que vivem nos Estados Unidos e, em especifíco, no estado de Massachusetts.
O objetivo da pesquisa, segundo os autores, é não só mapear a imigração brasileira no país, como também mostrar a sua importância e impacto. Apesar dos dados utilizados serem de oito anos atrás, Álvaro Lima acredita que o perfil da comunidade não tenha sofrido mudanças significativas.
“As mudanças não são grandes porque a imigração segue padrões bastante estáveis. Recentemente, eu fiz uma pesquisa junto a 250 brasileiros de Massachusetts, e as diferenças em termos de gênero, idade, etc não são grandes”, afirma.
Quem somos
O censo de 2000 registrou a presença de 212,636 brasileiros vivendo nos Estados Unidos, o que representa 0.7% da população estrangeira do país, que é calculada hoje em torno de 31 milhões de pessoas. Contudo, dados não oficiais dos consulados brasileiros nos EUA apontam para mais de 1.2 milhões de brasileiros no país.
O estudo de Lima e Siqueira observou que os imigrantes brasileiros são, em grande parte, naturais de cinco estados: Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, Santa Catarina e Paraná, respectivamente. Porém, outros estados brasileiros também exportam números significativos de imigrantes para os EUA.
Flórida é o destino preferido dos imigrantes brasileiros, abrigando 22% deles. O estado é seguido por Massachusetts (17%), Califórnia (11%), New York (10%) e New Jersey (10%). Esses cinco estados juntos representam 70 % da população total de brasileiros entrevistados pelo Censo de 2000.
De acordo com a pesquisa, a idade média dos imigrantes brasileiros é de 33.7 anos. A maioria é casada e o grupo de mulheres é um pouco maior do que o de homens.
Em relação à educação, o estudo mostra que os imigrantes brasileiros com mais de 25 anos têm um nível de instrução mais alto, se comparados a outras comunidades latinas. 80% deles possuem diploma do high school ou equivalente e mais da metade têm pelo menos alguns anos de curso superior.
Eles também aprendem a falar inglês com proficiência. Metade dos entrevistados pelo Censo disse que fala inglês “menos que muito bem”. Contudo, entre os brasileiros com mais de cinco anos, 8.7 falam apenas inglês em casa.
Status migratório
A pesquisa observou que 21% dos brasileiros entrevistados são naturalizados. Mas deve-se enfatizar que há uma tendência maior dos residentes legais responderem ao Censo do que os indocumentados. No entanto, Álvaro Lima destaca que isso não afeta o resultado do estudo.
“O perfil dessas duas populações não são tão diferentes, mesmo porque eles fazem parte da mesma família, vêm da mesma região e, às vezes, mudam de um status para outro”, adiciona.
Situação sócio-econômica
O Censo mostra que 61.8% dos brasileiros com mais de 16 anos estavam empregados em 2000. A taxa de desemprego é de 3.7%.
A ocupação mais comum entre esses imigrantes é a de prestação de serviços, que corresponde a 1/3 de todos os trabalhos realizados pela comunidade. Uma porção significativa dos trabalhadores brasileiros é classificada como autonôma, 13%, índice considerado alto quando comparado ao de outras comunidades. 80% são empregados por empresas privadas e 7% pelo governo.
A renda média anual dos brasileiros entrevistados é de $38,570. A porcentagem de famílias brasileiras vivendo abaixo da linha de pobreza é de 14% e de brasileiros é de 19%. Entretando, um estudo divulgado na semana passada pelo Center for Immigration Studies, de Washington, afirma que 10% dos imigrantes brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, estatística que sobe para 33% se incluídas as pessoas que vivem na pobreza ou pouco acima da linha de pobreza.
Os brasileiros são, na sua maioria, inquilinos: 68% alugam imóveis e 32% são proprietários.
Contribuição dos brasileiros para a economia americana
Em 2000, os brasileiros eram proprietários de mais de 3.700 negócios no país. Massachusetts, que abriga a segunda maior população de brasileiros, de acordo com a pesquisa, é líder na concentração de negócios brasileiros, com 28% do total. O estado é seguido por New Jersey ( 27%) e Flórida (21%).
Esses negócios juntos geram vendas de um bilhão de dólares anualmente. Eles empregam mais de 10 mil pessoas, geram 14 mil trabalhos indiretos e contribuem com $108 milhões em impostos estaduais e federais.
Os brasileiros também contribuem com a economia americana gastando em torno de 4 bilhões anualmente, o que gera $1 bilhão em impostos federais e estaduais, e impulsionam a criação de mais de 94 mil trabalhos indiretos na economia americana.
New York Times: brasileiros voltam para casa
Um artigo publicado pelo jornal New York Times de terça-feira, 4, destaca o aumento do fluxo de brasileiros retornando ao país de oigem. A reportagem entrevistou agências de viagens que afirmam estar vendendo um número muito grande de passagens só de ida para o Brasil. Dados dos consulados brasileiros destacados na matéria também notam a saída definitiva de muitos imigrantes.
Para Álvaro Lima, ainda é cedo afirmar que está havendo um êxodo de brasileiros do país. “Existe algum movimento de volta de brasileiros. Não se sabe realmente se é grande e se é algo só momentâneo”, afirma.
O pesquisador compara dados do Censo que mostram que a população de brasileiros em Massachusetts, por exemplo, diminuiu de 2005 para 2006 ( 94,460 para 84,178), mas a do resto do país cresceu no mesmo período (346,293 para 358,634). “Isto não quer dizer que não há volta, mas também não há um êxodo”.
Contudo, Lima concorda que alguns fatores estão contribuindo para a decisão dos imigrantes brasileiros. “A imigração mais rígida, a desvalorização do dólar, a crise econômica americana e a melhor performance da economia brasileira sao fatores importantes”, conclui.