Faltando 14 votos para levar o debate à votação, senadores interrompem o sonho de milhares de indocumentados. Legalização deve ficar para o próximo presidente, daqui a dois anos
Na quinta-feira, 28 de junho, a esperança de legalização de 12 milhões de imigrantes indocumentados chegou ao fim. Junto dela, o desejo de alguns legisladores, empresários, uniões de trabalhadores e até do presidente George W. Bush de consertar o saturado sistema migratório do país.
Por 46 votos a favor e 54 contra, o Senado decidiu não levar adiante a votação final do projeto de reforma migratória, interrompendo o debate sobre o assunto na Casa. Como há outras questões urgentes na pauta do Senado, e diante do ínicio das campanhas eleitorais para presidente, especialistas acreditam que as discussões relacionadas à imigração ficarão para o próximo presidente eleito, daqui a dois anos.
O projeto do Senado propunha, além da legalização dos imigrantes que vivem sem permissão no país, a criação de um programa de trabalhador convidado, para que novos imigrantes pudessem vir legalmente; o fortalecimento da segurança nas fronteiras americanas e nos locais de trabalho e a mudança do sistema migratório baseado na reunificação familiar para o de mérito profissional.
Essas principais medidas foram também as mais polêmicas e as que mais geraram discórdia entre democratas e republicanos. Na quarta-feira que antecedeu a última votação, os senadores analisaram e votaram 27 emendas que atacavam exatamente esses pontos do projeto. Tanto um partido quanto o outro sofreu derrotas na tentativa de mudar a futura legislação. Os resultados das votações refletiram a fragilidade do acordo bipartidário estabelecido pelos autores do projeto.
“Nós sabemos a que eles são contra, mas nós não sabemos a que são a favor”, disse o senador Edward Kennedy, democrata de Massachusetts e um dos autores da proposta, referindo-se à posição dos republicanos. Kennedy sugeriu que os oponentes talvez queiram criar algum tipo de “Gestapo” para prender imigrantes ilegais. “Esta é a alternativa deles?”, questionou.
O senador republicano Jeff Sessions, por outro lado, afirmou que os defensores do projeto de lei estavam tentando empurrar a sua aprovação limitando injustamente o debate. Sessions votou contra a continuidade das discussões na última quinta-feira.
O presidente George W. Bush, que apoiou o projeto de Senado desde o começo, disse estar desapontando com resolução da questão. “Eu sinto muito pelo Senado não ter conseguido alcançar um acordo sobre esse projeto. Imigração é uma das maiores preocupações do povo americano e a incapacidade do Senado agir causa desapontamento ... o Congresso realmente precisa provar que é capaz de chegar a acordos em questões difíceis”, declarou o presidente.
Empregadores preocupados
Outro grupo que ficou desapontado com a suspensão do debate sobre reforma migratória é o de empregadores que dependem da mão de obra imigrante. Os setores de agricultura, indústria de processamento de comida, landscappers e construção civil foram os que mais fizeram lobby para aprovação da lei.
“Isso deixa muitos dos nossos membros numa situação dificil”, diz Brewster Bevis, diretor da “Association of Builders and Contractors”, uma associação nacional de construtores. “A maioria deles é bom, acredita que os trabalhadores que contrataram são legais. Mas eles querem dormir melhor, sem ter medo de receber uma visita do ICE (US Immigration and Customs Enforcement)”.
As grandes empresas de tecnologia, ciência e engenharia também estão preocupadas com a não aprovação da lei. Elas dependem da força de trabalho dos estrangeiros, que geralmente vêm para os Estados Unidos sob o visto H1-B. Este ano, os 65 mil vistos que são liberados anualmente pela Agência de Imigração se esgotaram num só dia. A esperança dos empresários americanos era de que a nova legislação aumentasse a cota de visto e facilitasse a concessão da residência permanente para esses trabalhadores.