O Jornal da Globo do dia 25 exibiu mais uma vez uma conversa telefônica entre um pistoleiro e o suposto representante de um deputado federal por Minas Gerais, tramando a morte de um outro deputado federal.
A linguagem chula e vulgar típica do sub-mundo do crime não causou nenhum espanto na opinião pública, mesmo sabendo que o suposto mandante e a quase vítima fazem parte da Igreja do Evangelho Quadrangular em Minas Gerais, que, ao que se parece, está envolta numa briga intestina entre parte da sua liderança – pelo menos aquela que é composta de políticos.
O incrível é que estes grampos, por mais verdadeiros que sejam (e parecem ser reais), têm revelado cada vez mais aquilo que se transformou a política brasileira: uma associação de mafiosos que fariam corar de vergonha os verdadeiros mafiosos italianos e americanos, relegando-os a meros aprendizes de jardim de infância.
Os grampos telefônicos têm revelado a absoluta falta de pudores dos homens que gravitam em torno do poder central, e a cada nova operação da Polícia Federal já se sabe que vem mais sujeira por aí.
Se a nação brasileira assistiu ou ouviu as negociatas feitas pelo empresário Zuleido Veras, dono da Construtora Gautama, do mesmo modo que já havia ouvido empresários e advogados ligados às máquinas de caça-níqueis negociando sentenças no judiciário e corrompendo quem se lhe opunha e não se espantou pela gravidade do assunto, tampouco se chocou ao ouvir outro dia mesmo um descarado Vavá - o ingênuo - pedindo uns "dois paus" para alguém do outro lado da linha.
O que faria com os "dois paus" o ingênuo e barato Vavá, numa República onde os valores negociados giram em torno dos milhões? Certamente utilizaria essa quantia para custear alguma despesa doméstica de última hora, ou mesmo para ter alguns trocados nos bolsos.
Pouco antes da conversa do pistoleiro que mataria o deputado federal Carlos Willian, foi a vez do ex-governador e senador por Brasília Joaquim Roriz ser pilhado em conversa com um assessor, negociando o recebimento de pouco mais de dois milhões de reais.
Sem se abater ou sequer ficar envergonhado, Roriz disse que o dinheiro se referia a um empréstimo de R$ 300 mil destinados a compra de uma bezerra, que certamente deve ter morrido de desgosto de ter sido assim tão exposta à opinião pública sem o menor constrangimento.
O resultado é a população cada vez mais exposta à sem-vergonhice que acontece todos os dias nos bastidores da política brasileira cada vez mais suja, corrompida e comprometida com tudo o que não presta, principalmente com aquilo que se refere a dinheiro.
Por outro lado, não se tem notícias de que a justiça - que é lenta, morosa, lerda, vagarosa e sujeita a todo tipo de expedientes legais e ilegais - tenha condenado pelo menos um destes que tem sido pilhados nos últimos tempos em alguma negociata. E olha que eles são muitos!
Sabe-se que alguns têm milhares de horas de conversas gravadas e seria inimaginável que pudéssemos ouvir cada uma delas sem sentir vontade de vomitar no banheiro mais próximo.
Na década de 80, a Itália, que sempre esteve às voltas com corrupção de todos os tipos, promoveu um ajuntamento de setores íntegros da sociedade e promoveu a “Operação Mãos Limpas”, que investigou, prendeu, julgou e aprisionou quase três mil pessoas, entre elas empresários, magistrados, políticos (quatro ex-primeiros ministros) e limpou a área dos corruptos. Tudo porque um dia se saturou de tanta bandalheira e roubalheira. É de se imaginar o dia em que a sociedade brasileira irá seguir os mesmos passos dos cidadãos de bem da Itália e se cansar dos seus homens públicos, promovendo a sua limpa também.
A julgar pelos teores das conversas originadas dos grampos telefônicos, que causam cada vez mais asco em quem as ouve, este dia não está longe de acontecer. Que seja logo, pois de grampos estamos cheios…