Saúde em risco: Imigrantes pagam caro pelo sonho americano
Fonte: Agência BR NEWS Karine Porcel
Depressão, estresse e doenças crônicas como diabetes, pressão alta e insonia são problemas cada vez mais comuns na comunidade brasileira. Em muitos casos, o aparecimento de doenças é conseqüência do modo de vida dos imigrantes e da falta de prevenção.
Há quase um ano, Maria (nome fictício), moradora de Nova York, faz terapia periodicamente para tentar vencer uma depressão descoberta há mais de três anos. O caso dela foi diagnosticado como uma depressão moderada que se não for cuidada pode gerar problemas graves.
Inicialmente, a mineira não deu a menor importância para o diagnóstico e recomendações do médico que a atendeu na emergência de um hospital do Bronx. “Passei mal enquanto trabalhava limpando um escritório. Estava sem comer nem lembro por quanto tempo e também não estava dormindo direito. Meu ânimo para trabalhar era nenhum, mas aqui, se a gente não trabalha, não ganha”.
O médico recomendou que ela procurasse ajuda de um psicoterapeuta. “Quando ele me disse isso eu pensei: ‘imagina se aqui a gente tem tempo para essas coisas’”. Dois anos depois, Maria se deu conta de que a recomendação do médico e a insistência de um amigo para que ela procurasse ajuda fazia sentido. “Comecei a me viciar em remédios para dormir. Não conseguia dormir sem tomar uma pílula. O problema é que uma vez tomei várias pílulas e passei mal novamente”, lembra.
Maria vive nos Estados Unidos há 16 anos. Há oito anos não visita sua família no Brasil. Seu pai está doente e seus parentes dependem financeiramente dela para cuidar dele. Com tantas responsabilidades, ela diz que seu nome é trabalho. “Não posso parar. Se paro, logo penso em tudo que eu tenho que pagar, no dinheiro que tenho que mandar. E também as coisas hoje em dia aqui na América estão muito difíceis. A gente tem que trabalhar muito mais para fazer o mesmo dinheiro”, diz.
De acordo com o médico Eduardo Siqueira, professor assistente do Department of Community Health and Sustainability, da UMass, em Lowell (MA) e coordenador do Projeto Parceria, há uma grande quantidade de imigrantes desenvolvendo depressão na comunidade brasileira. Os motivos incluem os enfrentados por Maria.
“A imigração muda várias coisas na vida das pessoas. Elas mudam de casa, de emprego, de língua e até de família. São muitas mudanças ao mesmo tempo, com isso, elas têm que se adaptar culturalmente a muitas coisas. É preciso ter uma rede de apoio para lidar com tudo isso, mas muita gente fica aqui sozinha, trabalhando demais, durante muitas horas e em condições ruins. São exploradas, são discriminadas. É uma situação complicada de lidar”, analisa o médico.
As conseqüencias desse modo de vida observadas por Siqueira não páram nos casos de depressão. “Muitas pessoas acabam usando drogas, álcool ou tomando remédios sem receitas. Também percebemos mudanças de comportamento. As pessoas ficam com medo, não querem mais sair de casa, outras ficam agressivas, gerando problemas de violência doméstica”, cita.
Comunidade estressada
O psicoterapeuta Alexandre Silva aponta o estresse como outro problema que está se tornando cada vez mais comun na comunidade imigrante. “O estresse não é um distúrbio físico ou mental, mas se deixado sem atenção pode se desenvolver em doenças graves, como distúrbios no sistema imunológico e até câncer”.
Segundo Silva, para evitar o estresse, assim como depressão e mudanças de comportamento, os imigrantes não devem concentrar a sua vida em torno de um único objetivo. “Temos que ter um objetivo sim, mas a vida não se resume a ele. Vamos aprender a cultura local e tentar evitar a segregação a todo custo. Ao invés de fechar as portas, vamos abrir portas. Existem coisas fundamentais, além do trabalho, como esporte, e amor que são formas de manter a saúde fisíca e mental em alta”, completa.
Problemas físicos são resultados de prevenção
Se os brasileiros andam cuidando mal da mente, o que dizer do corpo. Alimentação gordurosa, poucas horas de sono, vida sedentária e falta de exames regulares. Segundo Siqueira, tudo isso tem levado ao aparecimento de doenças crônicas entre os brasileiros, como diabetes, pressão alta, insonia e obesidade. “Ao imigrar, eles passam a comer mal e rápido, e muitos adquirem o hábito do cigarro e álcool. Não há estatísticas sobre isso, mas notamos que os imigrantes brasileiros começam a ter os problemas que os americanos têm”.
Contudo, para o médico, os imigrantes não deixam de cuidar da saúde por vontade própria. “Eles têm pouco acesso ao sistema de saúde público. Vão empurrando com a barriga até parar na emergência. Aí, o problema já virou algo mais grave”, observa. Este é o caso de Angélica Martins. Há 12 anos nos Estados Unidos trabalhando como house cleaner e manicure, ela ganhou um sério problema de coluna. “Há muito tempo sinto dores nas costas, mas sempre fui aliviando com um saco de água quente, pois ir ao médico aqui é muito caro. Mas há oito meses tive uma grave crise e hoje sou obrigada a fazer tratamento para amenizar as dores”, conta.
E o dinheiro que ela economizou com os anos em que usou saco de água quente? Será que paga o tratamento que ela precisa fazer hoje? “Não sei quanto teria gasto se tivesse procurado um médico antes, mas acho que não há ditado mais certo: “é melhor prevenir do que remediar”.