Um dos meios mais conhecidos para entrar ilegalmente nos Estados Unidos pelo Canádá é a travessia de trem.
Mário desde sempre acalentou o sonho de vir para os Estados Unidos tal como seus irmãos, cunhados, primos e colegas que deixaram a cidade de Mantenópolis no Espírito Santo para fazer a América. Aos 19 anos e depois de ter concluído o colegial, Mário enfrentou a resistência da mãe e do pai que não queriam de modo algum que o caçula seguisse o exemplo dos outros. A falta de perspectiva fez com que ele se decidisse por vir. A exemplo dos parentes e amigos, foi ao consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro e teve o visto negado duas vezes. Restava então, o caminho mais difícil, mais arriscado e mais caro atravessar uma das fronteiras americanas. Ou ainda o dos documentos falsificados, que ele por convicção religiosa não queria fazer. As histórias que Mário ouviu a vida toda não o desestimularam, ao contrário eram um desafio que ele iria enfrentar. Pouco antes de ele vir para os Estados Unidos dois dos seus melhores amigos entraram pelo Canadá, e seria por ali que ele tentaria também. O visto canadense foi conseguido com relativa facilidade, pois os documentos de Mário os mesmos apresentados no consulado americano eram bons, e as propriedades do seu pai davam um razoável suporte legal. Com os contatos fornecidos pelos irmãos nos Estados Unidos, Mário gastou cerca de US$ 4 mil mais barato do que se viesse pelo México, e depois de chegar no Canadá pela manhã, a tarde já estava nos Estados Unidos. A fronteira dos Estados Unidos com o Canadá é o dobro da fronteira com o México, e como o serviço de imigração canadense é mais rígido e severo que o mexicano há um certo relaxamento na vigilância americana. Os consulados canadenses são as vezes mais rígidos do que os americanos na concessão do visto, o que em linhas gerais desestimula eventuais candidatos, além do que os dois países trocam informações sobre vistos que são negados. No Canadá só é possível entrar pelos aeroportos ou portos, o que inibe sistematicamente a entrada de imigrantes ilegais. O português Silvio é um dos muitos traficantes de pessoas que colocam todo ano milhares de pessoas dentro do Canadá numa ponte com os Estados Unidos. Ele oferece uma gama variada de opções que vão desde a obtenção legal do visto; da falsificação de documentos para o mesmo fim; ou ainda comprando ou alugando passaportes de pessoas que já tem o visto canadense, e trocando a foto e fazendo a montagem pura e simples. Outra prática comum é a obtenção de passaportes europeus que são comprados de ladrões profissionais especializados neste tipo de roubo. Há brasileiros que sendo descendentes de italianos, espanhóis ou portugueses, conseguem obter a cidadania destes e de outros países, e conseqüentemente adquirem nacionalidade européia que vendem ou simplesmente alugam os seus passaportes para os traficantes de pessoas. O Canadá e os Estados Unidos não exigem o visto prévio de muitos países, e mesmo assim alguns brasileiros de posse destes documentos preferem desembarcar no Canadá e dali partir para os Estados Unidos numa travessia menos arriscada e mais barata. Se alguma coisa der errada na entrada pelo Canadá sempre haverá uma outra possibilidade de entrar nos Estados Unidos sem dúvida nenhuma mais rigoroso e exigente. Dos passaportes europeus o mais difícil de ser falsificado é o de Portugal, que já implantou tecnologia de ponta a prova de fraudes, dai a preferência de Silvio por passaportes espanhóis, italianos e franceses. O risco de tentar vir pelo Canadá existe, mas é imensamente menor do que o do México. São várias as possibilidades da travessia. Por barcos que só funcionam no verão. São milhares de barcos que transitam de um lado para o outro e na maioria são operados por americanos natos, que recebem o seu dinheiro e jamais fazem qualquer tipo de pergunta. Neste caso os dois pontos mais usados são em Búffalo, Estado de New York onde o rio Niagara é a barreira natural e em Montreal, onde há muitos lagos e rios gigantescos, e embora a fiscalização seja intensa de igual forma, não há como controlar esse tipo de atividade, que é o maior canal de entrada ilegal entre os dois países. Há o mais famoso deles, que é a travessia de trem já dentro dos Estados Unidos o trem tem de diminuir a velocidade em determinado ponto e as pessoas saltam e correm ao encontro dos traficantes que já os esperam. Marli e Lúcio usaram deste expediente para entrar nos Estados Unidos. Pais de duas crianças na época com um e dois anos e meio, deixaram os filhos que atravessaram de carro com a mulher do traficante e já dentro dos Estados Unidos as crianças foram devolvidas sãs e salvas. A vigilância por parte dos oficiais da imigração é muito grande, o que não impede que as pessoas burlem a fiscalização. Pode-se ainda atravessar a pé por imensas áreas sem fiscalização e neste caso é necessário estar com alguém que conheça bem os pontos que podem ser utilizados para a travessia. É muito comum que imigrantes sejam abordados pelas autoridades já dentro dos Estados Unidos e detidas por não ter documentos e por não apresentarem justificativas adequadas, dai a presteza de muitos traficantes que a exemplo de Silvio, que tem uma equipe grande com americanos, canadenses, portugueses e brasileiros e que se gaba de nunca ter tido qualquer problema na travessia. Silvio a exemplo de outros traficantes de pessoas só atendem quem vem indicado por quem já utilizou os seus serviços. Clientela fiel que fornece serviço o ano inteiro, e que pelo jeito não vai parar tão cedo, a exemplo de Mário e seus amigos que foram guiados por Silvio e seu pessoal. Leia na próxima edição do National: Travessia pelo Canadá - Com uma extensão maior do que a fronteira com o México, a travessia pelo Canadá é pouco explorada pelos coiotes devido ao rigor das autoridades canadenses com a concessão de vistos. Diferente dos coiotes mexicanos, os traficantes de pessoas pelo Canadá, são frios e profissionais embora, exista registro de uso de violência por parte deles.
Nota: os nomes por questão de privacidade são todos fictícios.