Nem os Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro e muito menos a tragédia do vôo 3054 da TAM foram capazes de tirar os holofotes da mídia de cima de Renan Calheiros, o presidente do Senado brasileiro. Se bem que, durante este período, a pressão diminuiu consideravelmente para sua renúncia.
Denunciado pela Revista Veja, a mais prestigiada do Brasil, por pagar um acordo e pensão alimentícia à jornalista Monica Velloso (com quem tem uma filha) através de um lobista, e com dinheiro sem origem comprovada, Renan Calheiros se viu no olho de um furacão e de mais um – entre tantos – escândalo, tão comum nos últimos tempos da política brasileira.
Para justificar os pagamentos, Renan disse que o dinheiro era proveniente da venda de gado da sua fazenda e juntou documentos, provas e fez discursos inflamados, dizendo-se inocente e vítima de uma perseguição de adversários políticos. No vai e vem dos fatos, descobriu-se que os documentos eram frios, que o preço era incompatível com o mercado, além de terem sido usado laranjas para justificar a movimentação de dinheiro. Surgiu também a denúncia de que a Cervejaria Schincariol comprou acima do preço uma cervejaria da família de Renan, e que ele havia sido diretamente beneficiado pela venda.
Os seus pares procuraram agir com boa vontade para com ele, e havia a tendência de que ele sequer fosse denunciado no Conselho de Ética, cuja eficácia não foi comprovada. Entre idas e vindas de relatores, presidentes e componentes do tal conselho para analisar o caso, perdeu-se um tempo considerável, com Calheiros jurando de pés juntos que era tudo um mal-entendido, e que não renunciaria ao cargo de presidente do Senado.
O cargo de presidente do Senado Brasileiro é importante, pois é o terceiro na linha de sucessão presidencial, no caso de impedimento ou problemas com o presidente da república, o vice e o presidente da Câmara dos Deputados, e traz no seu bojo todo um ritual, além de dar visibilidade a quem eventualmente o ocupa. A liturgia do cargo é complexa e gera dividendos políticos e eleitorais, sem detrimento de outros interesses.
Impávido, Renan Calheiros bateu o pé e a sua situação só fez piorar com a publicação na edição da semana passada de mais uma matéria da Revista Veja, desta vez acusando-o de ter comprado uma rádio e um jornal em sociedade com o milionário usineiro e ex-deputado João Lyra.
A matéria revelou que Renan fez os pagamentos em dinheiro vivo, que provavelmente não passou pelo sistema bancário, revelando ainda que os pagamentos eram entregues em envelopes, a exemplo dos que haviam sido pagos a Monica Velloso.
Houve quem apostasse que desta vez Renan Calheiros seria devidamente despachado, e nem assim ele se constrangeu. Ao contrário, recebeu a má notícia de que o Supremo Tribunal Federal determinou a quebra dos sigilos telefônico e fiscal, e pela primeira vez desde o início da crise, ocupou a tribuna do Senado para se defender da matéria da Veja, e atacar os seus supostos adversários políticos em Alagoas.
Com o Conselho de Ética inoperante e com a ameaça dos senadores de não votar nenhum projeto na entulhada pauta do Senado até que Renan se licencie do cargo, vem a desculpa de que uma briga política do sertão alagoano, que não interessa absolutamente a ninguém, paralisa definitivamente uma das maiores instituições brasileiras, infelizmente tão maltratada e mau representada como jamais se viu na história da política brasileira.
Que não demore muito, pois o país não pode ficar à mercê de um presidente do Senado fraco e com fortes indícios de corrupção. O que tinha tudo para ser um mero problema da alcova do senador Calheiros, tornou-se um explosivo e comprometedor escândalo de proporções inimagináveis que ameaça parar o Brasil.