Há algumas semanas, imigrantes indocumentados se encheram de esperanças com a notícia de que New York State iria permitir que tirassem as tão sonhadas carteiras de motoristas para que pudessem trabalhar e cumprir os seus compromissos.
Enganou-se novamente quem pensou que desta vez tudo daria certo, pois o Senado estadual e os representantes do Partido Republicano se encarregaram de colocar no chão as expectativas de milhares de pessoas, votando contra o projeto. O governador Eliot Spitzer tem sido pressionado por setores da sociedade para não levar adiante os seus planos. Resta saber até onde o governador resistirá às pressões, principalmente do eleitorado conservador que junto com os democraras rejeita veementemente a proposta.
Com isto volta-se quase à estaca zero, pois se este projeto realmente não passar, significa que mais pessoas se juntarão aos milhares que diariamente têm ido embora porque não suportam viver numa situação de verdadeira indigência, que é viver sem documentos, temendo o tempo todo ser parados numa blitz policial e não ter como explicar o inexplicável.
Basta uma rápida consulta a qualquer agência que vende passagens para ver a quantidade de brasileiros que estão indo embora e os que irão até o final do ano, por não concordarem em viver literalmente à margem da sociedade, sem que ninguém tome uma atitude para minorar o sofrimento de tantas pessoas.
Não há a curto prazo nenhuma expectativa de legalização à vista, e as coisas estão cada vez mais difíceis, pois os imigrantes estão sendo vistos como criminosos que estão aqui para tramar contra o povo americano, quando na realidade estão aqui para ter uma vida melhor e mais digna em todos os aspectos.
O que fazer então? Uma idéia para se conquistar a carteira de motorista é deixar de comprar carros e com isto as seguradoras iriam sentir na pele e nos bolsos a falta que faria este dinheiro. Já a indústria automobilística que enfrenta problemas daria o seu grito que certamente seria ouvido pelas autoridades legislativas.
Vale lembrar a lição e o legado de Rosa Parks, que com a sua recusa em se sentar no espaço reservado aos negros nos ônibus do Alabama, foi presa, e com isto provocou um boicote da população negra que andou a pé durante um ano, até que a lei de segregação racial fosse revogada.
Em princípio, os legisladores se recusavam em cancelar a lei, mas com passar do tempo, os caixas das companhias de transporte foram sendo afetados, e os empresários trataram de pressionar as autoridades, pois a população negra não se dava por vencida.
Com isto colocaram em prática a velha máxima de que se batermos na cara de um homem ele vai virar as costas e vai embora, mas se mexermos no bolso dele, ele vai pular em cima de nós.
Os homens que tiveram os seus negócios afetados fizeram os políticos ver que se eles não tivessem dinheiro, consequentemente não poderiam contribuir para as campanhas político-partidárias, e como os políticos precisam de dinheiro para se eleger…
Se os doze milhões de imigrantes indocumentados deixassem de comprar carros, e eles começassem a sobrar nos pátios das fabricas e das revendedoras e as seguradoras não tivessem carros para segurar, em quais portas eles iriam bater?
A história do Alabama se repetiria e, com a ameaça concreta de que não haveria dinheiro para fazer política, os legisladores pulariam da cadeira e rapidamente modificariam as leis.
Não há dúvidas de que os imigrantes indocumentados estão de fato cansados de dar um passo à frente e dois para trás, sem que ninguém se importe com eles. Será que não está na hora de seguirmos o exemplo de Rosa Parks e do povo do Alabama, deixando de comprar carros e de fazer seguros? Vivemos numa nação onde é o capitalismo que manda em tudo, e infelizmente tem gente que só entende a linguagem da força. Ou do boicote.