Mais uma tragédia toma conta da comunidade brasileira em Massachusetts, com a morte numa prisão, em Rhode Island, de Edmar Araújo. Morte cercada de mistério, pois nem a polícia e nem a justiça americana se pronunciaram, o que nos faz supor que uma rigorosa investigação seja feita para que a causa da morte de Edmar seja esclarecida.
Enquanto isto não acontece, tudo é mera suposição. Como era de se esperar, as lideranças comunitárias se alvoroçaram todas e viram no episódio mais uma perseguição – entre tantas outras reais e imaginárias – que povoam a mente da nossa gente.
Falou-se em martírio, em assassinato, em negligência, em descaso, em preconceito, e até em omissão de socorro, pois segundo a irmã de Edmar ele era epilético e necessitava tomar remédios, que ela não pôde entregar a ele na prisão.
Este episódio triste e constrangedor para todo mundo mostra o quanto os imigrantes indocumentados estão expostos às agruras do rigído sistema judiciário americano, com suas leis e regras nem um pouco maleáveis. Tecnicamente, Edmar Araújo era um foragido, a partir do instante em que tinha que comparecer à Corte de Imigração e não foi. Deste instante em diante podia ser preso a qualquer instante e em seguida ser deportado para o Brasil.
A cada dia mais imigrantes indocumentados com ordem de deportação são localizados e mandados embora sem a menor cerimônia, o que pode ser constatado pela grande quantidade de brasileiros que são deportados todas as semanas.
Edmar Araújo foi parado numa blitz de trânsito e o computador acusou que ele era procurado. Consequentemente, devia ser detido e entregue às autoridades de imigração para os devidos procedimentos. Esta prática – de foragidos da imigração constarem nos computadores da polícia, principalmente a State Police, é recorrente em quase todos os Estados americanos, o que transforma a vida de quem se encontra nesta situação num verdadeiro martírio.
Sabem que vão sair de casa para trabalhar ou passear, e não sabem se voltarão, pois uma transgressão qualquer no trânsito pode acabar definitivamente com o sonho americano. Sonho que nos últimos tempos se transformou num pesadelo cruel, pois é notório que as autoridades – com todo o direito – estão fechando cada vez mais o cerco ao imigrante indocumentado, principalmente àqueles que têm contas a acertar. Em Estados como Vermont, Maine e New Hampshire, as polícias estaduais acionam automaticamente o Departamento de Imigração cada vez que um indocumentado é preso por qualquer delito, inclusive os mais corriqueiros no trânsito, sem a menor condescedência.
No episódio da morte de Edmar Araújo, fica a pergunta: porque as autoridades que o tinham sob custódia não permitiram que os medicamentos fossem entregues? (que ao que parece eram brasileiros, portanto, sem autorização de venda legal nos Estados Unidos). Temos que levar em consideração que as autoridades americanas são extremamente legalistas, e a menos que os remédios fossem solicitados pelo próprio Edmar, eles não autorizariam a entrega de qualquer coisa para o prisioneiro.
Não permitiram porque as regras neste caso são claras e não foram escritas pos eles. Cabe aos funcionários fazer com que não haja excessões, que neste caso custou a vida do brasileiro. Os carcereiros eram guardiães legais, primeiro do brasileiro e depois das leis, e quem conhece a cabeça de alguns deles pode dizer o quanto são inflexíveis no trato com estas coisas.
Custa crer que ele tenha sido morto por outra causa que não algum mal que o acometia. Ao mesmo tempo, lamentamos que mais uma vida tenha se perdido, quando buscava uma forma de sair da pobreza e da privação, e que por uma ironia do destino tenha vindo morrer num momento tão delicado para todos os imigrantes indocumentados.