Brasileiros aparecem em várias notícias sobre fraudes cometidas nos Estados Unidos. Em alguns casos, imigrantes são protagonistas de golpes, em outros, são vítimas da má fé de compatriotas.
A notícia de que um paranaense simulou a própria morte para receber seguro de vida nos EUA colocou a comunidade no centro das discussões sobre golpes cometidos por imigrantes.
Na semana passada, Mércio Eliano Barbosa, de 28 anos, foi preso pelo Núcleo de Repressão a Crimes Econômicos (Nurce) da Polícia Civil do Paraná por ter aplicado uma fraude contra a New York Life Insurance, uma das mais importantes seguradoras dos Estados Unidos.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública paranaense, o golpe começou a ser preparado há três anos, quando Barbosa morava com sua esposa nos EUA. Ele teria comprado duas apólices de seguro de vida, num total de US$ 1,6 milhão (R$ 2,70 milhões) e, depois, começou a procurar pelo Orkut alguém que lhe fornecesse um atestado de óbito falso.
O fraudador encontrou o papiloscopista João Alcione Cavalli, que trabalhava no Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba. Por R$ 30 mil, Cavalli vendeu o cadáver de um indigente, tirou as impressões digitais de Mércio e pediu que ele indicasse um parente de primeiro grau para fazer o reconhecimento. A tarefa ficou a cargo de Daiana, de 20 anos, irmã de Barbosa, que obteve a liberação para o enterro.
Com o atestado de óbito falso, a mulher de Mércio, que ainda está nos Estados Unidos, acionou o seguro para receber a indenização da New York Life.
O crime que parecia perfeito começou a ser descoberto logo depois. A seguradora nova-iorquina desconfiou da morte de Barbosa por causa do valor da apólice e repassou algumas informações à polícia brasileira. Em três meses de investigação, oficiais chegaram aos fraudadores.
Barbosa e Daiana foram presos no norte do Paraná, juntamente com Cristian Gean José de Andrade, que emprestou seu nome para Mércio fazer o consórcio de um carro no valor de R$ 130 mil.
Os três vão responder por estelionato, falsificação de documento público, falsidade ideológica, corrupção ativa e formação de quadrilha. O funcionário do IML será indiciado por corrupção passiva. A polícia entregará uma cópia de todo o procedimento investigativo à Polícia Federal, para que sejam tomadas as providências legais contra a esposa de Barbosa, que está nos Estados Unidos. Provavelmente ela será extraditada, pois está em situação ilegal no país.
Fora da lei
A lista de fraudes que envolve brasileiros não é pequena. Algumas pessoas cometem delitos contra seguradoras, bancos e, até mesmo, contra compatriotas, por acreditarem que estão protegidos pela ilegalidade. Sem documentos, acham que não serão punidos e poderão voltar ao Brasil a qualquer tempo, caso percebam que a situação está se complicando.
Assim como há vilões, há vítimas.
Há seis meses, Marina Gorete procura um compatriota que lhe vendeu uma casa no interior de Goiás que já tinha dono. “Ele agiu de má fé comigo e com outras pessoas. Confiei na palavra dele e comprei a casa, sem saber que a documentação nunca sairia, pois o imóvel já tinha dono e não poderia ser comercializado”, conta.
Ela investiu cerca de R$ 50 mil, de dois anos de economias nos EUA. “Meu erro foi fazer tudo informalmente, pagando parcelas mensais a uma pessoa que supostamente era dona do apartamento. Tudo o que tenho hoje é um contrato de compra e venda falso, que não serve pra nada”.
Marina descobriu que havia sido enganada no final do ano passado. “Ele prometeu a escritura na última parcela, em outubro, mas nada aconteceu porque ele sumiu. Em janeiro, pedi para um amigo acompanhar o caso e ele levantou que a casa tinha dono e nunca esteve à venda”, completa.
Do episódio, Marina tirou uma lição: “infelizmente, há gente de todo tipo aqui, por isso, minha recomendação para todos os brasileiros é: não confie nunca. Não é porque é da sua cidade e tem cara de bonzinho, que não vai te prejudicar”.