- Cuidado para não tocar muito adiante, que a pista está escorregadia.
Este foi um dos muitos diálogos travados entre a torre de controle e pilotos na tarde-noite da terça-feira, 17, no Aeroporto de Congonhas. Diálogo que era o prenúncio de uma tragédia iminente. E ela não demorou muito a acontecer. O vôo 3054 da TAM, que havia saído de Porto Alegre com 186 passageiros, derrapou na pista, e foi se espatifar no prédio de cargas da TAM na Avenida Washington Luiz, vizinha do aeroporto.
O acidente com o Airbus A320 da TAM é o pior da história na aviação brasileira, e é o reflexo perfeito e acabado da crise no setor aéreo que se instalou no espaço aéreo e nos aeroportos brasileiros nos últimos 10 meses, desde o acidente com o vôo 1907 da Gol, que se desintegrou no ar depois de se chocar com um jato executivo. Mesmo depois de exaustivas investigações e até de uma CPI ainda não se chegou a uma conclusão satisfatória do que aconteceu e quem são os culpados. A única certeza que se tem é a de que há uma lista de mortos, que poderia ter sido evitada.
O acidente expôs ao público as graves falhas, o caos e a crise de equipamentos e material humano, cuja culpa a Infraero e a Aeronáutica jogam sistematicamente uma para a outra. Desde então, o que se vê são aeroportos entulhados com milhares de pessoas, vôos cancelados e atrasados, filas de passageiros e de aviões que estão cada vez mais no chão, provocando cenas lamentáveis principalmente de idosos, crianças e passageiros doentes esperando por horas a fio sem que ninguém tome as suas dores. Sem contar o movimento dos controladores de vôo, que tem feito de tudo para atrasar, irritar e prejudicar quem precisa voar no Brasil.
Um dos aeroportos mais atingidos pela crise é o de Congonhas, recordista brasileiro em vôos, e às vezes com espera de horas para pousos e decolagens. As pistas de Congonhas há muito precisavam de uma reforma geral; reforma que aconteceu há pouco mais de dois meses, mas que ainda está incompleta, e que ao que parece foi o motivo do acidente com o vôo 3054.
Chovia bastante na hora do acidente, mas a pista foi liberada sem as ranhuras que permitiriam que a água pudesse escoar pelas laterais e permitir um pouso seguro em todos os aspectos. Não se sabe ainda quais são os fatores que ocasionaram o acidente, e o fator pista é o que ganha mais indicações, pois a falta de rugosidade do asfalto e a possibilidade de acúmulo de água são ingredientes que certamente contribuíram para a tragédia.
Mas por que a pista que não estava 100% reformada foi liberada para uso? No dia anterior ao acidente um avião da Pantanal derrapou na pista molhada e foi parar no gramado entre as pistas, sem maiores conseqüências. Foi liberada por causa do imenso tráfego aéreo e porque a paralisação total de Congonhas agravaria ainda mais o caos nos aeroportos brasileiros.
Reproduções de diálogos entre pilotos e a torre de controle de Congonhas, veiculados no Jornal da Globo, como o do início deste texto, dava conta de que a pista oferecia riscos imensos para pilotos, passageiros, aviões e vizinhos do aeroporto, mas nem assim a pista foi interditada, mesmo sabendo que em Congonhas não há áreas de escape, e que se um avião desgarrasse iria parar ou sobre casas vizinhas ou nas avenidas que circundam o aeroporto. E foi isto o que aconteceu.
Diante deste quadro pode se supor que um acidente em Congonhas era uma questão de tempo. A tragédia, infelizmente, bateu à porta de muita gente que perdeu parentes e amigos no fatídico acidente, que é o pior da aviação civil mundial nos últimos cinco anos.